sexta-feira, 3 de maio de 2013

Ferrugem e Osso


Ferrugem e Osso
(De Rouille et D'Os, 2012)
Drama - 120 min.

Direção: Jacques Audiard
Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain

com: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts

Depois de dois adiamentos, finalmente o público brasileiro terá a chance de assistir a esse excelente filme francês, dirigido pelo mesmo diretor do ótimo "O Profeta", Jacques Audiard. Mesmo que ele faça parte de um festival, o que sabemos não ajuda o "boca a boca" de um filme, confinando-o aquele momento e eventualmente ao mercado de home vídeo.

Guardando a mesma característica de crueza do trabalho anterior, Ferrugem e Osso é a história dolorosa do encontro de um casal de desajustados depois de um trauma que os une. Alain (Matthias Schoenaerts) é um boxeador belga, que recebe a guarda de seu filho pequeno e parte para a França, para morar com a irmã e buscar um emprego e um novo começo. Stéphanie (Marion Cotillard) é uma mulher bela e fria, que enxerga sua vida sem nenhuma paixão. Tem um emprego curioso (é tratadora e treinadora de Orcas) e vive com um homem que não ama. Sua vida como a do boxeador não tem muito sentido e ambos vagam dias a fio sem maiores pretensões.

Acabam se conhecendo uma balada em que Alain é o segurança. Stéphanie está completamente bêbada, discute com alguém e acaba apanhando. Preocupado com o estado da mulher, se oferece para levá-la embora e deixa um cartão para que ela o consulte caso precise, já que ele nota a relação conflituosa que a mulher tem com seu companheiro.



O que parece uma historia simples, transforma-se completamente quando um terrível acidente acontece com a tratadora. Notando-se sozinha, apela para a ajuda daquele homem que fora tão gentil com ela dias antes. Partindo de uma amizade, Alain mostra-se prestativo inclusive para eventuais favores sexuais e o que acontece é o envolvimento cada mais intenso e visceral entre os dois.

Bruto e grosseiro, ele precisa controlar sua personalidade complicadíssima já que sua relação com o filho é difícil e suas habilidades limitadas. Parte para a luta clandestina como solução para seus problemas ao mesmo tempo em que tenta manter um relacionamento com Stéhanie. Um relacionamento difícil, já que ambos são pessoas orgulhosas e feridas. A dependência física dela prejudica o relacionamento e boa parte do desenvolvimento da trama é sobre essa mulher tendo de recomeçar, agora que não tem emprego e sua vida fori virada do avesso.

O que mais impressiona na historia é a crueza com que Audiard cria seus personagens. Apesar de fincado no romance, tudo aqui é tão verossímil (apesar dos exageros) que mesmo diante de personagens que não são especialmente simpáticos, nos identificamos e torcemos por estes "cabeças duras".



Se Matthias acerta no tom de poucas palavras, explorando sua energia sexual latente, Marion Cotillard tem - talvez - o desempenho mais forte em sua carreira. As dificuldades físicas são enormes, o desprendimento físico elogiável e sua personagem passa por uma transformação muito intensa diante da tela. De mulher complicada e infeliz, ela descobre na dificuldade e na deficiência uma saída para a felicidade.

Esse romance entre duas pessoas "estragadas" pela vida é forte exatamente por isso. A crueza e a jornada dos personagens é precisamente mostrada por um Audiard mais contido do que em O Profeta, mas ainda mais incisivo no seu retrato de uma classe média-baixa francesa que não aparece no cartão postal. Ferrugem e Osso - um título excelente - é um dos grandes dramas da década. Honesto, emocionante, com interpretações muito fortes e uma historia de amor crível mesmo embebida na sordidez.

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