quinta-feira, 10 de março de 2011

Bruna Surfistinha
(Bruna Surfistinha, 2011)
Drama - 109 min.

Direção: Marcus Baldini
Roteiro: Antonia Pellegrino, José Carvalho e Homero Olivetto

Com: Deaborah Secco, Fabiula Nascimento, Cássio Gabus Mendes e Drica Morais

No Brasil e em todo mundo a temática sexual possui, obviamente, apelo maiúsculo. Tema que atrai atenções, multiplica opiniões. Várias opiniões surgiram, afinal, com o livro O Doce Veneno do Escorpião, lançado por Raquel Pacheco, contando as aventuras de sua rotina como a prostituta Bruna Surfistinha. Claramente, o livro possui ousadia - já de cara pela história que conta - tendo em vista obviamente suas páginas negras lacradas onde a ex-garota de programa dava detalhes de suas façanhas sexuais. Não há pudores, nessa área pelo menos, para Raquel Pacheco nem em sua vida, nem em seu livro.



Na adaptação cinematográfica, no entanto, não caminha bem por esse caminho. Um filme que pretende debater e ilustrar um cotidiano que não é conhecido a fundo pelo público geral necessita-se, antes de mais nada, despir-se de pudores. Mas não falo de pudores de conteúdo sexual, ou de suas cenas picantes, ou qualquer coisa do gênero - era preciso se livrar do modo convencional, e por vezes burro, de lidar com seu protagonista. Martirizar, vitimizar e fragilizar, são as vozes de comando essenciais para o filme de Marcus Baldini. Abordagem clichê, típica da visão limitada de alguns roteiristas existem sempre, e sempre veremos. O que prejudica mesmo é um filme sobre prostituição portar essa pieguice.



Sem se enrolar na hora de montar a linha narrativa, o longa dá uma pincelada na vida de Raquel antes de fugir da casa dos pais - e é nesse meio tempo que começa a vitimização da protagonista. Mostrando-a sendo agredida verbalmente pelo irmão em casa, e destruída moralmente na escola, o roteiro faz questão de atenuar qualquer atitude ''duvidosa'' da protagonista - como roubar jóias dos pais - mas, por outro lado, não dosa a quantidade de maniqueísmo contido nas atitudes dos coadjuvantes .


É só o lançar das bases de uma modelação infeliz de ''vítima'', da personagem principal. Esse olhar na tentativa de ''elevar'' a protagonista, de algum modo, acaba por tirar bastante de seu realismo - e se o filme não descamba para o chavão "pastelóide", muito se deve por Deborah Secco, que segura até onde consegue. E se um filme sobre prostituição perde seu realismo, perde logo sua veia visceral, e fica a sensação desconfortável e irônica de assistir um produto piegas que conta uma história que, na prática, nada tem disso. Essa perda visceral, aliás , deve-se em suma pelo roteiro, por fim . A cada take mais bem ajambrado de Baldini - a câmera fixa na cara de Secco quando Raquel está em seu primeiro programa - temos uma narração em off desnecessária e inconveniente, que só traz de acréscimo uma hiper-exposição infeliz.



Mas não é só disso que vive Bruna Surfistinha, afinal. O objetivo era mostrar o início, o galgar do sucesso, o apogeu, a decadência e o desfecho. Aí é um somatório de pequenos erros coroados com um ato falho final. Ora, Bruna fala, em certo momento de seu apogeu , para nunca desistir de seus sonhos, que seu objetivo sempre chegará se você lutar. Não me parecia o sonho de Raquel - tão pouco de qualquer ser humano - se tornar uma grande prostituta. Parece, sim, um caminho em círculos '' batalhar muito para ser prostituta, e assim ser coroada uma grande prostituta''. Isso lá parece grande conquista ? Enfim, isso varia de cabeça, mas o filme já deixa seu argumento com embasamento dúbio.


E se Bruna tem sua desgraça na cocaína, o script desenha sua derrocada de maneira preguiçosa e pouquíssimo detalhada, pra não dizer capenga. Feita as pressas, fica difícil absorver as proporções do acontecimento. Arco importante e mal desenvolvido, algo que não pode ser feito.



Mas talvez o principal problema de Bruna Surfistinha seja seu tom hipócrita que incomoda de verdade. O discurso de Raquel, é afinal, a independência, a liberdade, o fim das amarras, a felicidade de ser solta. Por esses motivos e por outros ela deixou a casa dos pais, certo? Pois no seu desfecho, no seu ponto final, é que todo o filme parece ser um enorme loop que vai até muito longe para voltar a praticamente o mesmo lugar. Por mais que o longa acredite que Raquel foi uma vitória de independência, ele mesmo se contradiz - a imagem que fica, ao fim da exibição, afinal, não é de um vulcão sexual determinado, mas de uma frágil menina perdida.


quarta-feira, 9 de março de 2011


O Filmes para ver antes de Morrer nunca tentou - e nem vai tentar - criticar ou analisar uma obra que por motivos óbvios está no panteão das maiores (na opinião da equipe) já produzidas pela sétima arte, por isso o espaço aqui é para relembrarmos, homenagearmos e apresentarmos a quem não viu, grandes filmes da história do cinema.

Amadeus
(Amadeus, 1984)


Wolfgang Amadeus Mozart é dos maiores e mais talentosos seres humanos que já respiraram na história de toda a humanidade. Descrever a capacidade desse artista é tão desnecessário quanto dizer a alguém que se ela não beber água vai desidratar e futuramente morrer. É obvio, e todo ser humano, em qualquer canto do planeta já teve o prazer de ouvir nem que seja um trecho de sua fabulosa obra.

Mas, Amadeus o filme, não fala de Mozart. Essa é a grande sacada do genial Milos Forman. Amadeus é a história de Antonio Salieri, um compositor contemporâneo de Mozart e que viveu sua vida (segundo o filme) numa mistura doentia de admiração extrema e ódio profundo quando ao homem Wolfgang e a obra de Mozart.


Forman aqui apresenta a confissão (literal) do compositor italiano ao público e por meio de longos flashbacks nos conta a impressão de Salieri sobre o homem.


Essa é uma idéia inteligentíssima, pois é muito mais fácil falar sobre um compositor de segundo escalão (com todo respeito aos 18 die hard fãs de Salieri espalhados mundo afora) do que biografar cada passo de um dos maiores artistas da história da humanidade. Com isso Forman, deixou de contar a história de Mozart, para mostrar a visão de Salieri sobre aquele homem.


Salieri o via como um alienígena bufo e exagerado. Mulherengo e sem a menor noção de modos e etiqueta social, mas dotado de um talento que o fazia realmente de outro mundo.


Algumas seqüências reforçam essa percepção, como a que Mozart chega ao palácio do imperador alemão e decora ao vir andando da ante-sala até a presença do monarca a melodia preparada por Salieri em homenagem a sua visita. E pior, com apenas uma única audição, senta ao piano e a toca de maneira perfeita alterando as notas e ainda sugerindo melhorias. A interpretação de F. Murray Abraham nessa cena dá o tom de todo o restante da longa película. Seu olhar incrédulo, impossível de definir entre um profundo respeito ao artista e um ódio feroz ao petulante garoto.


Tom Hulce, em seu melhor papel, faz de seu Mozart uma eterna criança, que muitos viram como um quase rockstar, cercado de festa, mulheres e promiscuidade. Prefiro ver a interpretação de Hulce como uma demonstração da reverencia de Forman ao personagem. Impossível de ser enquadrado como um "homem comum", como Salieri, Forman pede a Hulce uma interpretação recheada de over actting, talvez pensando que Mozart era tão consciente de sua genialidade que não fazia a menor questão de demonstrar sua superioridade aos outros. Ele simplesmente sabia que era melhor. E quando você sabe, não existem motivos para esfregar sua competência na cara dos outros, você só segue sua vida e se diverte com o talento que tem.


Mas é Murray Abraham quem levou o prêmio da Academia, um dos merecidos oito prêmios que o filme recebeu (direção de arte, figurino, maquiagem, som, roteiro adaptado e diretor e filme, além do de Abraham para melhor ator) e é com ele que o espectador acompanha o crescimento de Mozart. Salieri não chega a ser um vilão na concepção da palavra, é mais uma figura trágica, fracassada e eternamente destinada a perder. Numa comparação pop, é como assistirmos o desenho Corrida Maluca e torcermos para Dick Vigarista ganhar (embora ele tenha ganhado uma vez). O espectador sabe, e Forman usa isso muito bem, que por Salieri estar se confessando, que seu relato é cheio de remorso e por conseqüência agridoce em relação a sua vida ao lado de Mozart.


Existem seqüências fabulosas de musica no filme também. A interpretação da única opera de Mozart, Fidélio, é em especial estupidamente eficiente. Notem Tom Hulce "jogando pra fora" todas as neuroses e frustrações de seu personagem que desde cedo viveu como um garoto prodígio e gênio em miniatura. Quando seu pai morre, é o momento de catarse e de descuido do personagem, quando - e ai entra a parte fictícia que funcionou tão bem - Salieri "ataca".


A historia não conta como Mozart morreu, e o roteiro de Peter Schaffer imagina um plano de Salieri que deixa Mozart tão transtornado que o faz trabalhar literalmente até o limite máximo de suas forças. Essa sequência final de Hulce e Abraham é das mais magníficas da história do cinema. É o que sem duvida convenceu a Academia a premiar Abraham. É quando - por meio de diálogos - Abraham finalmente compreende que por mais que ele tente jamais conseguira atingir o mesmo nível de Mozart, que constrói melodias do mais completo vazio e as escuta em sua mente antes de colocar no papel. Salieri no papel de escrivão de uma obra de arte, sente na pele a dificuldade de acompanhar a incrível velocidade de raciocínio do genial Amadeus e ao conseguir - por alguns minutos - entrar na mesma sintonia mental de Amadeus, experimenta o gozo completo em ser um gênio e ali percebe o erro monumental que cometerá ao provocar - mesmo que de forma não intencional - a morte de uma figura rara na historia da humanidade.


Todos os aspectos técnicos do filme são impecáveis, o que é o mínimo exigido em um filme de época tão grandioquente como Amadeus. Direção de arte e figurino são impressionantes, fotografia segura e maquiagem bastante eficiente para a época (talvez hoje fosse mais realista) e todo o trabalho com o som é digno de aplausos. Nem vale a pena comentar sobre a trilha sonora, já que enfim... vocês sabem.


Forman aqui conquistou seu segundo e merecido Oscar, e ao conseguir sustentar essa imponente história, e com detalhes tão minuciosos e tanta coisa a ser dita na tela percebe-se seu dedo na tranqüila condução dos atores - nenhuma grande estrela - como já havia feito em Estranho no Ninho, que revelara uma dezena de atores talentosos. Nunca mais Abraham e Hulce tiverem papéis tão fortes a sua disposição. Uma pena, já que são dois atores extremamente competentes.


E quanto a Amadeus? Pessoalmente é dos meus filmes favoritos de todos os tempos, um dos poucos que apesar da longa duração (160 minutos) não me canso de rever. Seja para apreciar o talento de Forman, ou o duelo entre Abraham e Hulce, ou a ingenuidade excêntrica de Jeffrey Jones como o Imperador ou para ouvir e prestar homenagens a um dos maiores seres humanos da história da humanidade: Wolfgang Amadeus Mozart.

terça-feira, 8 de março de 2011

Rango
(Rango, 2011)
Ação/Aventura - 107 min.

Direção: Gore Verbinski
Roteiro: John Logan

Com as vozes de: Johnny Depp, Isla Fisher, Abigail Breslin, Ned Beatty, Alfred Molina e Bill Nighy

Um dos mais celebrados gêneros do cinema, o faroeste deu a Sétima Arte clássicos obrigatórios como Três Homens em Conflito, Por um Punhado de Dólares, Meu Ódio será tua Herança, Os Brutos também Amam, Era uma Vez no Oeste e vários outros. Os faroestes "spaghetti" chamam atenção por sua estética apurada (mesmo com custos relativamente baixos) e sua mitologia totalmente peculiar, diferenciando-se dos westerns americanos realizados por John Ford, Howard Hawks, Henry Hathaway, Anthony Mann, Sam Peckinpah, William Wellman entre muitos outros. Sergio Leone popularizou e mitificou o faroeste spaghetti em parceria com astros como Clint Eastwood e Lee van Cleef, atingindo seu auge no fim de sua trilogia dos dólares, o já citado Três Homens em Conflito. Após o esquecimento no gênero, que foi caindo em desuso frente ao apelo de filmes como os blockbusters, uma revisão foi realizada e neo-westerns como Tragam-me a Cabeça de Alfredo García e Os Imperdoáveis foram aclamados pela crítica (o primeiro, nem tanto, sendo apreciado apenas hoje em dia). Nos dias atuais, o faroeste só vem para as telas pelas mãos dos Irmãos Coen, que modernizaram a lenda do homem-mito/homem-comum em Onde os Fracos não tem Vez e ressurgiram com o gênero no estado puro, clássico, no recente e espetacular Bravura Indômita.


Ver um gênero ser tão baqueado pelo tempo, demorando anos até ser colocado de novo no mapa do público, é raro. Juntos com o faroeste, os únicos que compartilharam desse amargo momento foram os filmes de animação. Apenas após a revolução de Toy Story, em 95, os desenhos voltaram de vez pras graças do público. Agora, o faroeste está ressurgindo e nada poderia ser melhor que um conjunto deste com a animação, um dos gêneros mais ousados e abertos a possibilidades na indústria.



E é com essa curiosa ideia em mente que o diretor Gore Verbinski nos traz Rango. A história do camaleão com crise de identidade que vai parar numa cidadezinha típica do Velho Oeste americano, é uma ousada homenagem a Sergio Leone e ao cinema de faroeste/violência dos anos 60/70. Não só isso, é uma fábula competente e madura sobre o envelhecimento da região.

O roteiro de John Logan, de filmes distintos como Gladiador e Sweeney Todd, é feliz em criar uma história coesa, cheia de originalidade e que, ainda assim, faz homenagens e referências a todo momento, sem nunca soar fora da narrativa, tudo organicamente acoplado á estrutura. Os closes que Verbinski realiza em seus personagens nas cenas de impacto são puro Leone, enquanto a tresloucada sequência no deserto com a Cavalgada das Valquírias ao fundo já se torna icônica por sua perfeita execução e pelo humor refinado. Ainda nessa sequência, uma referência á Transformers surge de maneira tão impecável que jamais soa forçada ou até mesmo desnecessária. A caracterização dos personagens também segue o estilo spaghetti, com um inspirado Bill Nighy dublando Jake, a cobra idêntica ao gênio Lee van Cleef. O prefeito da cidade também é outra clara homenagem, o que se torna impressionante com o tempo. E Verbinski faz uma questão quase religiosa em demonstrar seu amor e respeito aos clássicos do gênero, filmando duelos com vigor e indo de hiper-closes de Leone á icônica visão do oponente á distância, entre as pernas do pistoleiro. A prova máxima do respeito dos realizadores é o duelo final, filmado com a parcimônia digna de Três Homens em Conflito, incluindo takes nervosos do relógio da igreja, com suas badaladas barulhentas.


Mas diferente da Dreamworks, que atira referências em excesso e a esmo na tela, Rango demonstra personalidade ao criar uma história que independe delas. Nisso, o desenvolvimento da narrativa impressiona por seus minuciosos detalhes. Já devidamente estabelecido quanto ás suas ambições e seus sentimentos nos minutos iniciais, no cenário artificial, Rango vai se tornando um mito desde sua queda do aquário. Inicialmente entendidos como um desnecessário ritmo lento apenas para causar risadas nos infantes na sala de cinema, esses primeiros minutos crescem ao analisar o desenrolar do filme, sendo essenciais para determinar o carisma inocente e a personalidade desfuncional do camaleão, um herói que impressiona por sua complexidade emocional. A história de fato começa após a sequência na estrada, quando Rango anda sem rumo pelo deserto. Ali, é jogado um elemento em tela que auxilia um surpreendente delírio do protagonista e ainda serve no futuro como pista/prova para o desfecho. E além deste elemento de cena, outros são jogados durante o filme antes do espectador ter pleno conhecimento deles, como a enigmática risada coletiva no Saloon e a passagem do último xerife de Dirt, a cidade do filme.

A construção do Mito em Rango, aliás, é parte fundamental da narrativa. Se o camaleão é fadado a lenda desde o princípio, nada mais apropriado que a testemunha ocular dos feitos do mesmo esteja lá no Saloon, afim de estabelecer sua própria verdade. E o que importa o fato de ser o próprio Rango a testemunha dessa lenda, que sabemos ser irreal? A partir da leitura na garrafa de cacto, pouco importa se o homem matou ou não Liberty Valance. Em tempos da falência do homem perante o ambiente, cada um germina seu mito. E se o conceito estabelecido parece forçado dado que o filme é uma animação, isso logo se anula. O clímax do filme, recheado de beleza da natureza, é a genial prova de que o ambiente vence o homem novamente. Mas quando é analisada a inocência e bondade de Rango, percebe-se que não foi o Texas sujo dos anos 80 de Anton Chigurh que venceu. Foi o puro espírito do Velho Oeste, não por acaso personificado e peça-chave da narrativa, dublado por Timothy Olyphant. Quando aquela vastidão natural invade a tela de forma descontrolada, o Mito que desde o início vinha sendo traçado, é finalmente consolidado. O ambiente venceu, mas o Homem se consolidou, provando que há espaço para os dois. E não há prova maior dessa velha máxima que o respeito mútuo dos personagens ao final do filme.



As divertidíssimas corujas fazem parte dessa ideologia. Ainda que passem a narrativa inteira cantando e tocando seus instrumentos para divertir as crianças, seria pobre pensar nelas apenas como alívio cômico. Elas são o Mito, descrito em prosa e poesia musical, contando a história do homem que virou lenda. E é tocante a passagem em que as corujas se abstém de cantar, com tristeza explícita nos olhos. Ali, não foi demonstrado apenas um imenso respeito por Rango (e pelo gênero do faroeste), mas foi colocada em dúvida pela primeira vez a consolidação do Mito. Quando as corujas voltam a falar e cantar felizes, é o espírito do Velho Oeste nela presentes, não apenas um gesto cômico mas sim um fio de esperança na crença.

As sequências de ação grandiloquentes são um fôlego a mais pra narrativa, uma modernização da estrutura do faroeste. Coordenadas com uma direção irretocável e belíssima esteticamente de Gore Verbisnki, as sequências são perfeitas e servem pra divertir, aumentar o ritmo da narrativa e liberar a trilha espetacular de Hans Zimmer para reverenciar 2001, Apocalipse Now e Ennio Morricone. A fotografia de Roger Deakins, conhecido por vários faroestes como Bravura, Onde os Fracos e Assassinato de Jesse James, ajuda ainda mais a ambientação realista (a ILM é tão fantástica que faz parecer live-action em algumas cenas) que Verbinski queria pra seu projeto.



Com uma construção de personagens impecável, especialmente de Rango (que encontrou em Johnny Depp seu perfeito alter-ego live-action), o roteiro ainda nos brinda com um clímax instigante e que aborda um assunto que consegue, ao mesmo tempo, ser atual e metalinguístico com a modernidade versus velho oeste. Contudo, o filme tem um erro que impede-o de alcançar a nota máxima, ainda que chegue muito perto. A necessidade em abordar uma mudança no terceiro ato, ainda que excelente no contexto da narrativa, é abordada de maneira clichê e anteriormente testada. Uma pena, pois se não fosse essa necessidade que o roteiro se impôs pelos próprios caminhos narrativos que resolveu trilhar, seria irretocável. Claro que isso é um detalhe ínfimo perto da qualidade adquirida, mas ainda sim o defeito considerável. O humor, inteligente em grande parcela do filme (a lápide do xerife antigo é genial), é substituído por passagens mais físicas, o que claramente é pra colocar os pequenos nas risadas ou, se pensarmos alto, uma homenagem a Buster Keaton e Charles Chaplin. Não devendo ser vista como um defeito (ou homenagem desnecessária), essa tentativa é perdoável se pensarmos que essa animação de 130 milhões de dólares é, na verdade, um faroeste revisionista que poderia ter sido dirigido pelos Irmãos Coen ou Quentin Tarantino.

Sendo assim, Rango se consolida como uma das animações mais ousadas e arriscadas em muitos anos. Investindo num gênero pesado e envolvendo armas de fogo e fumo com naturalidade bizarra para um filme "infantil", Rango foge do campo de referências e finca seu pé nos autos dos grandes faroestes revisionistas. Se lembrando de onde veio e repaginando o gênero para a animação. Quando o Espírito do Oeste aparece em seu automóvel engraçado, Rango pergunta se o costumavam chamar por "homem sem nome". A referência é clara, mas porque não pensar que isso é plausível e neural a narrativa, já que estamos vendo um "homem sem nome" transformar-se em Mito em tela? Rango não é um nome, é um mantra, uma lenda.


E provando que o Velho Oeste continuará vivo pra sempre no código moral de cada um, é novamente UMA bala que muda tudo. E o respeito incomensurável entre os envolvidos é tão impressionante, tão bem arquitetado, que vemos ali, bem na nossa frente, Clint Eastwood e Lee van Cleef evitando seu confronto em prol do que todos eles respeitam num faroeste: a Lenda. Afinal, a bala constrói um Mito, mas nunca O mata.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A Sétima Alma
(My Soul to Take, 2010)
Suspense - 107 min.

Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven

Com: Max Thieriot, John Magaro e Emily Meade



A Sétima Alma é o aguardado - por muita gente - retorno de Wes Craven (criador de Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos e Hora do Pesadelo e diretor da série Pânico) ao gênero que o consagrou. Primeiro filme escrito e dirigido por Craven desde As Criaturas Atrás das Paredes em 1991 era muito antecipado e discutido antes de sua estréia.


Uma pena que o buzz não seja justificado depois da sessão do filme. Longe de ser um slasher como seus primeiros filmes e não contendo o bom humor da série Pânico (seu ultimo grande sucesso) My Soul to Take é um terrorzinho adolescente fajuto e que não apresenta nenhuma sequência digna de atenção.


My Soul começa empolgante (talvez adepto da teoria de George Lucas, de que os primeiros cinco e os últimos vinte minutos são os que importam em um filme) e apresenta a "mitologia" da historia. Um homem aparentemente possuído mata diversas pessoas - retratado de forma violenta - antes de cair morto (ou não) pela policia. No mesmo dia em que o homem morre, sete crianças nascem e a lenda da cidade conta que a alma do serial killer se dividiu em cada uma dessas crianças. Anos depois, as sete crianças são perseguidas por um serial killer (que pode ser o antigo assassino) no dia em que se comemoram dezesseis anos de sua ultima "aparição".



Fez algum sentido? Serial killer possuído que divide a alma e volta dos mortos para infernizar os sete moleques? Sim. É isso aí.


Com uma idéia tão medíocre é difícil fazer alguma coisa boa. Todos (sim, todos) os clichês que o diretor tão bem parodiou em Pânico, estão presentes, e dessa vez levados "a sério". Não existem personagens, são todos uma coleção de estereótipos ruins amparados por atores fracos e uma direção no mínimo, preguiçosa.


Craven parece não ter vontade de mudar o que já fez, e copia planos e idéias de outros filmes seus e de outros contemporâneos. O caminhar de um personagem na madrugada interrompido pelo assassino vestindo uma fantasia (ridícula, por sinal), que no corte seguinte aponta os "suspeitos" no melhor estilo novela das oito, dando margem ao público - a tentativa é essa - para pensar qual deles será o assassino está presente, só para citar um exemplo.



Os personagens dos sete jovens são patéticos. Temos o esportista abobalhado e machão, a garota crente e obcecada com o ocorrido, a garota jovem que luta contra seus sentimentos pelo "protagonista", o anti-social, e os dois garotos étnicos (um asiático e um negro) que orbitam ao redor do fraco protagonista, um garoto fragilizado emocionalmente e com sérios distúrbios de personalidade.


O filme até tenta usar esses distúrbios a seu favor, fazendo o espectador testemunhar uma série de imitações patéticas realizadas por esse rapaz, mas não funciona. Além de o ator ser muito ruim, a idéia em si é fraca e não funciona nem como alivio cômico ou tentativa de desconforto. É simplesmente ruim.


Não chega a ser patético, já que o absurdo da idéia do roteiro é tão grande, que o espectador fica querendo saber como Craven vai terminar sua bobagem. Será que Craven perdeu a mão para escrever? Será que essa é a justificativa para sua demora em voltar a filmar material próprio?



O que podemos afirmar é que Pânico 4, chega aos cinemas ainda em 2011, e veremos se o diretor Craven consegue ser menos preguiçoso e apresenta um resultado superior a esse fraco desempenho.

domingo, 6 de março de 2011

Namorados para Sempre
(Blue Valentine, 2010)
Drama/Romance - 112 min.

Direção: Derek Cianfrance
Roteiro: Derek Cianfrance, Cami Delavigne e Joey Curtis

Com: Michelle Williams e Ryan Gosling



O amor. É disso que fala Blue Valentine (traduzido de forma ridícula no Brasil como Namorados para Sempre), um primor de romance, deverás cruel, como a vida. Em vários momentos parecia que o filme ecoava o melhor de John Cassavettes, embalado pela estética indie e trilha sonora de alta qualidade.


Mas Blue Valentine não é uma comédia romântica ou mesmo um drama trágico, é um historia realista sobre os desafios que qualquer casal enfrenta para ficar junto. Dificuldades de convivência, as diferentes maneiras de ver a vida, os familiares, filhos e a fauna que faz parte da árdua tarefa de viver ao lado do outro.


Blue não alisa e apresenta tudo o que pode de maneira crua, com câmera na mão, imagem granulada, sem escolher lados e apontar erros e acertos. Trata seus personagens como a vida os tratou: sem privilégios. Uma grande escolha de elenco acompanha as soluções visuais apresentadas por um diretor interessado em seus personagens e na melhor maneira de mostrá-los.



Ryan Gosling, já indicado ao Oscar (por Half Nelson) vive o sonhador Dean, um self-made man que não quer ser mais uma engrenagem em uma fabrica ou industria e prefere fazer as coisas por si só. Do outro lado está Cindy , a enfermeira dedicada interpretada com maestria por Michelle Williams. Cansada de uma rotina que definitivamente não a faz mais feliz e ao mesmo tempo insegura sobre qual caminho sua personagem complexa e delicada deve percorrer. Seguir seus sonhos? E a sua família? Ela ainda ama Dean? O que aconteceu com eles?


Em resposta a essa ultima pergunta é que o diretor Derek Cianfrance (também roteirista em parceria com Cami Delavigne e Joey Curtis) compartilha homeopaticamente com o espectador os porquês. Sem fazer concessões a elipses ou a diálogos explicativos Derek vai amarrando com um nó de marinheiro as narrativas do ontem e do hoje com extrema competência, nunca deixando o espectador confuso e estimulando um trabalho de detetive que faz da história mais do que um Love Story trágico. Sentimos-nos compelidos a entender aquele casal e os motivos que os uniram e que os vão fazer separar. Quando as respostas vem - e sendo fiel a sua própria proposta de maneira quase hermética de maneira cifrada - precisamos retomar o fôlego que nos é roubado pela sucessão de tragédias anunciadas que o inicio desse relacionamento apresentava.



Michelle Williams tem aqui o chamado "lifetime performance" fazendo de cada sequencia uma monstruosa prova de seu talento. Sutil e habilmente conduzida a parecer completamente diferente nos dois momentos que o filme aborda, mas mantendo a melancolia no olhar, o que nos faz perceber ainda mais as sutis mudanças no gestual de sua personagem em cada um dos momentos. Gosling, igualmente brilhante, e ajudado pela maquiagem que o fez quase careca e com aparência de apodrecido (quase um junkie) na narrativa atual também encontra um ponto de equilíbrio entre as duas personas: Dean é um sonhador, e mesmo quando a situação é insustentável ele tenta enxergar um norte brilhante, e isso transparece em sua atuação.


Blue Valentine é um grande trabalho, em especial do casal protagonista, e deveria ter sido melhor lembrado nas premiações mundo afora. Na minha lista entraria facilmente na vaga de três dos dez selecionados pela Academia no Oscar 2011.


sábado, 5 de março de 2011

The Company Men
(The Company Men, 2010)
Drama - 104 min.

Direção: John Wells
Roteiro: John Wells

Com: Ben Affleck, Tommy Lee Jones, Chris Cooper, Maria Bello, Kevin Costner e Craig T. Nelson



A primeira coisa que procurei fazer ao terminar de ver The Company Men, foi tentar descobrir a idade do diretor e roteirista John Wells, para identificar exatamente qual era o viés de sua agridoce critica ao "american way of life”.


Caso fosse jovens - menos de 40 anos - parecia ser uma critica a sociedade que trocou sua vida pessoal pelos bem materiais e pelo conforto do dinheiro, e mais profunda ainda, uma critica a forma com que boa parte da população encara seus respectivos empregos. Como extensão direta da vida, ou única razão para estarem andando na terra.


Caso fosse de meia idade, um mea culpa admitindo que a sociedade destruiu seu próprio sistema e que o que resta agora é juntar os cacos e tentar recomeçar, tentando mudar os paradigmas passados de geração em geração.



Caso fosse mais velhos, da terceira idade, um ataque aos "mais novos" que desvirtuaram o sentido do american way of life, e que transformaram o lema de Schwarzenneger "se você se esforçar e jogar pelas regras vai ser bem sucedido" em uma piada de mau gosto em que na verdade para ser bem sucedido basta saber em que pisar e com que força.


John Wells tem 53 anos, o que o enquadra na meia idade, a mesma de dois de seus protagonistas em seu filme de estréia. Isso explica o melodrama implícito em suas histórias, que se não são as principais (essa fica a cargo do mediano Ben Affleck) são as mais interessantes e cheias de vida.


Wells tem experiência extensa como produtor de séries de TV, ditas adultas e dramáticas como E.R., Southland, West Wing, Third Watch e alguns filmes interessantes como Retratos de uma Obsessão, Longe do Paraíso, Deixe-me Viver e Não Estou Lá. Também foi roteirista de parte das séries que produzia, porém dirigiu apenas alguns episódios de E.R. e um episódio documental sobre o FBI, antes de rodar Company Men.



Seu dedo televisivo fica claro em boa parte do filme, que se abdicarmos dos planos "grandiosos" de cargueiros abandonados e afins representando o descaso com que são tratados as fundações do país, poderia muito bem se passar por algum episódio de uma série de tv. O que não é um demérito, pois - e muita gente concorda com isso - os trabalhos mais ousados e intrigantes nos Estados Unidos (pelo menos aquele que pode vir a chegar ao público em geral) são apresentados nas telas de tv.


The Company Men segue três homens que não enxergam suas vidas sem seus trabalhos. Porém, se vêem engessados em uma estrutura burocratizada e anacrônica que aos poucos foi se implodindo. Gene McClary (Tommy Lee Jones) foi o primeiro empregado da empresa e hoje tem um alto cargo e administra uma série de funcionários entre eles Phil Woodward (Chris Cooper) e Bobby Walker (Ben Affleck).


Phil é o inquieto homem de meia idade que se segura num emprego que exige cada vez mais e lhe retorna cada vez menos. Bobby é um arrogante vendedor saído dos anos oitenta com todos os defeitos que os chamados Yuppies insistiam em apresentar. Entre eles, a capacidade inacreditável de acreditar que as aparências são mais importantes do que a realidade. Esbanjam-se jogos de golfe, carros caríssimos enquanto a companhia vai se afundando e Bobby na proa é um dos que com ela afunda.



O filme já começa com Bobby recebendo a noticia que estava demitido e sua derrocada e eventuais lições de humildade vão se sucedendo.


Existe um problema em abordar essa situação por esse prisma. Tudo o que se segue visa grifar que Bobby era um homem entorpecido pelos dólares e que não existia fora de sua mesa de trabalho, seus ternos caros e carros importados.


Contrabalanceando isso, o filme apresenta Jack (Kevin Costner), cunhado e o nêmesis de Bobby. Jack é carpinteiro e acha que o trabalho de Bobby além de inútil e exageradamente burocratizado, na verdade só o mata por dentro.


A significância que podemos enxergar é que para Wells o homem não pode se ver preso a seu emprego, como um escravo de seus hábitos e estar sempre pronto para os ventos da mudança. Nada diferente do que 10 entre 10 avalistas e consultores de RH diriam em nossa atual realidade econômica.


Por outro lado, um saudosismo quase ofensivo toma conta do filme, como se Wells também quisesse dizer "essa sociedade de hoje acabou com as boas e decentes empresas americanas". A sociedade mudou e é impossível crer que as mesmas gigantes de outrora manter-se-iam como baluartes da indústrias nos dias de hoje. Soma-se a isso a má gestão de diversas delas e o resultado é um só: desespero.


Wells aborda isso com uma faca na mão apontada a todos e isso prejudica seu filme, que surge como panfletário e mais interessado em atear fogo do que em defender posições.


The Company Men perde pontos por isso, faz uma tentativa de acidez, mas contenta-se em ser agridoce e na metade final em apresentar melodrama como solução para os problemas de seus personagens. Alguns trágicos, outros que "aprendem suas lições" e outros que mudam de vida. Parece retirado de um livro de auto-ajuda escrito por um executivo falido. Uma pena, já que o filme começa interessantíssimo, mas perde terreno ao apresentar soluções tão maniqueístas e que fogem das discussões propostas pelo filme.


sexta-feira, 4 de março de 2011

The Mechanic


O remake do filme com Charles Bronson é desta vez estrelado pelo lutador-ator mais cool do cinema atual, Jason Statham. A rasa trama conta a história de uma assassino que precisa ensinar as funções de "mecânico" para um aprendiz(Ben Foster). O descompromisso e a presença constante de sangue no trailer tornam esse filme um bom candidato a guilty-pleasure do ano. As câmeras super-lentas em imagens plásticas, como a Barrett .50 disparando, auxiliam bastante também. Uma real possibilidade para Simon West de fazer seu primeiro filme decente, após experiências esquecíveis como Tomb Raider e ridicularidades como Quando um Estranho Chama. Vale a pena, pela ação e o carisma de Statham.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Inverno da Alma
(Winter's Bone, 2010)
Drama - 100 min.


Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik, Anne Rosellini

Com: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Garret Dilahunt e Dale Dickey



Talvez vocês estejam familiarizados com a expressão "white trash", que denomina as pessoas mais pobres, desfavorecidas pela vida, sem cultura ou mesmo educação básica dos Estados Unidos. Inverno da Alma flerta com a idéia de apresentar essas pessoas e trás uma coleção de personagens perversos, amargos e problemáticos onde apenas a jovem Ree e seus irmãos ainda mais jovens são poupados.


Ree (Jennifer Lawrence) é uma garota de dezessete anos que tem de tomar conta dos dois irmãos menores e da mãe com problemas mentais, depois que o pai - um ex-presidiário - some sem deixar rastros. Apesar das enormes dificuldades Ree segue sua vida, tentando encontrar alguma alegria e satisfação em sua rotina dolorosa. Tudo muda, quando Ree precisa desesperadamente encontrar seu pai para manter-se dona de sua casa, dada como garantia da fiança do "fujão".



O filme passa a acompanhar a jornada de Ree para encontrar seu pai, que vive uma odisséia digna de uma amazona, enfrentando tudo e a todos que estão no seu caminho.


Jennifer Lawrence é sem dúvida o grande destaque do filme. Sua personagem marcada pela vida dura e sem escolhas é talvez o único ponto não completamente cinzento na paisagem pintada com grande competência por Michael McDonough. A diretora Debra Granik é muito feliz ao não querer beatificar sua heroína que não odeia o pai porque ele é um traficante, mas porque ele "caiu". Por que foi preso.


Todos os personagens do filme têm essa dualidade muito humana e que é cada vez mais rara em produções cinematográficas comerciais, coisa que Inverno definitivamente não é. Mesmo os mais cruéis personagens apresentam humanidade latente e isso fica claro na sequência - já antológica - do "passeio" de barco pelo rio. Mesmo em uma situação completamente horrorosa você percebe que as personagens criam um laço (mesmo que dure apenas por esse pequeno período) que se reflete na compreensão do espectador sobre aquelas mulheres.



Teardrop, o tio de Ree, (uma interpretação muito boa de John Hawkes) é outro exemplo disso, pois em sua primeira aparição além de medo daquele personagem, o público o enxerga como um psicopata a beira do abismo. Debra - muito inteligente - não muda essa impressão, e continua dizendo "hey, esse cara é maluco", mas mostra que ele não é só isso, é igualmente preocupado com sua família e tenta de tudo para poder ajudar sua sobrinha.


Esse é dos filmes mais feministas - no bom sentido - da atual temporada, e verdadeiramente celebra a força - positiva ou negativa - da mulher no mundo. Protagonizado e recheado de atrizes talentosas, com direção e roteiro dividido entre duas mulheres (a diretora Debra Granik e Anne Rosellini) mostra o impacto dessa realidade suja pelo olhar feminino, geralmente mais sutil e sensível.


Quando os homens tornam-se boçais, são presos ou transformam-se em viciados resta às mulheres assumirem a batalha. E nessa "conversinha de mulher" é que Ree tem de enfrentar seus demônios, peitar os homens no poder e ainda demonstrar sensibilidade com seus irmãos e sua mãe (na sequência mais tocante, Lawrence deixa transparecer toda sua infantilidade reprimida em uma conversa desesperadora com sua mãe).



Incrível notar a idade de Lawrence, 20 anos, e perceber como ela se despiu (metaforicamente) de suas vaidades para incorporar essa garota que sabe que seus sonhos são tão inatingíveis que resta a ela tocar o banjo e aguardar a próxima tragédia - anunciada - em sua vida.


Num mundo justo, Inverno da Alma teria um reconhecimento ainda maior. Trata-se de um dos filmes mais duros e cruéis em muitos anos vindos dos Estados Unidos, que deixa fisicamente o espectador cansado com tantas dificuldades e problemas enfrentados por seus personagens, e em especial por sua protagonista ser tão jovem e já ter de arcar com tantas responsabilidades e resolver tantos conflitos. Uma história de luta eterna e de final tão agridoce quanto à própria vida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Vanishing on the 7th Street
(Vanishing on the 7th Street, 2010)
Thriller/Suspense - 90 min.

Direção: Brad Anderson
Roteiro: Anthony Jaswinski

Com: Hayden Christensen, John Leguizamo, Thandie Newton e Jacob Latimore



Escuro. Todo mundo - pelo menos quando era pequeno - já teve em algum momento de sua vida, alguma espécie de receio/medo de ficar sozinho em um lugar escuro, vazio ou nebuloso. Vanishing on the 7th Street brinca com essa idéia e é um filme climático, de imagens escurecidas e de momentos que tentam recriar a tensão do abandono frente ao desconhecido.

Pena que esses momentos sejam muito poucos e a mediocridade prevaleça durante a maior parte da projeção. A atuação dos principais protagonistas Hayden Christensen, John Leguizamo e Thandie Newton é fraca e beira a peça infantil. Christensen - um ator limitado - chega ao cúmulo do fingir choro, quando precisa mostrar emoção. Leguizamo parece - como seu personagem - atordoado durante todo o filme e Newton, a única com uma linha narrativa mediana, é fraca, caindo no clichê da mãe desesperada e ensandecida por sua condição.


Brad Anderson é o diretor do elogiado O Operário - aquele com Christian Bale quase anoréxico - e aqui com atores menos inspirados e uma história sobrenatural no pior dos sentidos, brinca com algum sucesso com as sombras e as facilidades para provocar tensão com os elementos sonoros e ângulos evocativos. Porém, a intenção de Anderson parece não ser assustar o público - ou se tentou isso fracassou vergonhosamente. A significância que pode ser percebida é que Anderson tenta imaginar uma cidade (um mundo) sem luz, e na reação que tais personagens sentem aos fazerem parte de tal situação, fugindo da óbvia referência ao terror. Como reagiríamos se nos faltasse luz e vivêssemos em constante tensão com medo das sombras?



Vanishing acompanha quatro personagens (os já citados Christensen/Luke, Leguizamo/Paul e Newton/Rosemary e o garoto Jacob Latimore/James) que são alguns dos únicos sobreviventes a um misterioso sumiço de quase toda a população de Detroit. Inexplicavelmente as pessoas desaparecem após um blecaute, deixando suas roupas e pertences para trás. Aos poucos a escuridão começa a tomar de assalto o dia, e a cada vez menos o dia "vence" à noite. O que segue é uma mistura de filme apocalíptico com suspense psicológico b, onde os sobreviventes tentam entender o que aconteceu com sua cidade, tentam reencontrar os entes queridos e lutar contra os seres das sombras.


Os problemas são que o suspense psicológico é fraco, já que os atores escolhidos mal conseguem apresentar conflitos significativos, e quanto mais transformá-los em uma corrente de tensão. Christensen é o pior deles, como o jornalista Luke, um canalha que troca de cidade e abandona a ex. E só. Christensen não consegue transformar a amoralidade de seu personagem em nada maior do que a mediocridade. Tudo é blasé e mesmo quando o ator diz que "mesmo que sua ex-mulher o odeie ainda seria bom vê-la nessas condições" o público ri de vergonha alheia, pois surge como desespero sim, mas tão mal interpretado que é impossível tomar aquelas palavras a sério. Newton em seus momentos de desespero em busca do filho recém-nascido é patética, realmente exagerada e Leguizamo passa o filme todo bancando o "sábio das ruas", um self-made man que conhece segredos ocultos da humanidade, mas mesmo assim é projecionista de um cinema.


Quando o diretor busca o susto fácil, só encontra bocejos e não sabendo - ou apelando - como terminar seu filme, recaí sobre um clichê óbvio e estúpido e ainda tem tempo para ser politicamente correto. Se Vanishing tivesse sido feito há sessenta anos talvez fosse razoavelmente original e interessante. Hoje, não passa de um pastiche.


PS: Repararam que os nomes dos protagonistas homens são todos bíblicos: Luke/Lucas, Paul/Paulo e James/João. Certeza que não foi por acaso.


terça-feira, 1 de março de 2011


Mother's Day
O idiotizante trailer do novo filme do "diretor" Darren Lynn Bousman, de filmes como Repo! The Genetic Opera e Jogos Mortais 2 e 3, apresenta o remake do trash da Troma, lançado em 1980. A trama, que pouco tem a ver com o tom exploitation do original, conta a história de uma mãe que, após ser desapropriada, ajuda a soltar os 2 filhos delinquentes para eles aterrorizarem os novos moradores da casa. A trilha sonora retardada e de tons excessivamente cafonas só atrapalham a visualização do mal-montado trailer, que só dá sinais de ser a bomba do ano, ao tentar ser sério numa trama tão implausível(e remake de um trash!). Rebbeca de Mornay faz a mãe, demonstrando estar no fundo do poço. Lynn Bousman promete aqui atestar, mais uma vez, sua falta de talento. Evite.