terça-feira, 8 de outubro de 2013

Festival do Rio: Heli

Heli
(Heli, 2013)
Drama - 105 min.

Direção: Amat Escalante
Roteiro: Amat Escalante e Gabriel Reyes

com: Armando Espititia, Andrea Vergara, Linda González, Juan Eduardo Palacios

Amat Escalante ganhou o prêmio de melhor diretor em Cannes por este seu novo trabalho. Logo no primeiro take, um plano sequência muito bem realizado, já se percebe a estética handheld que o mexicano usa em Heli, aplicada com eficiência. É um clichê do cinema verité desde a Palma de Ouro dos Dardennes por Rosetta, mas ainda hoje é bem utilizado. No entanto, se muitos diretores escolhem a câmera-na-mão pelo realismo, Escalante parece escolhê-la pela maneira com que essa forma registra o choque. O diretor não apenas busca o choque desde o citado primeiro take; ele subverte sua estética para investir em planos estáticos, secos, para mostrar a violência.

Ao apresentar seus personagens, Escalante demonstra uma leve falta de pulso como narrador. Eleger um censo, síntese da exposição de informações, como maneira de introduzir seus personagens ao espectador é dos recursos mais preguiçosos. No entanto, o roteirista compensa a fragilidade de construção com um poderoso setting: o deserto do México em Heli é frio e surreal, com uma aridez que a fotografia dessatura; um palco adequado para o conto de abuso. Os planos abertos reforçam o isolamento, como se aquela cidade fosse abandonada pelo resto do mundo, e as cenas de treinamento militar são desconfortáveis, bem encaixadas na proposta. E no contraste de qualidade entre pano de fundo e trama, os personagens, simples em suas construções, acabam funcionando devido às situações que passam.

Esse contraste pode ser percebido através dos temas trabalhados pelo diretor. À nível temático, Escalante desenvolve com destreza. Sugere a hereditariedade na tortura da região – e na autoridade, como frisa a policial que perdeu o marido; insinua a naturalidade com que tratam a violência ali (a matriarca observa a mutilação e nada faz); e ressalta a burocracia nos procedimentos policiais. A boa estrutura narrativa do filme é composta visando atacar o abuso de poder dessas autoridades locais – sejam policiais, criminosos ou militares –, mas logo se volta ao estudo de personagem, com diretrizes morais ilógicas para a narrativa. Heli delira com a chegada de uma camionete militar com uma imensa metralhadora, sofre com a repressão fascista das instituições dali, mas é só após uma demonstração física de vingança que obtém paz de espírito para se entregar aos seus prazeres. Seria uma nuance dramática forte se questionada, mas ao registrá-la com atmosfera pacífica, Escalante se embola – e se contradiz – em seu estudo. Não por acaso, a subtrama de abstinência sexual soa deslocada até seu desfecho; é uma contradição que só se evidencia nesse último take.


Não se condena tanto a vitimização com que Heli entrega seus personagens (o choro de todos os torturados é silencioso) porque se adequam à visão de mundo ali apresentada, mas cobrar do espectador uma cumplicidade com um protagonista que só se sente realizado quando se torna um homem tão errado quanto aqueles criticados ao longo da trama é um esforço over demais para passar batido.

As cenas de tortura, que chegam a envolver fogo nas partes genitais de um homem, acabam vazias em seu contexto. Se a violência liberta, as melhores apostas do eleito homem de bem são um taco de críquete, álcool e um isqueiro?


Ou seriam essas as armas do amoral?

Festival do Rio: Sonar




Sonar
(Echolot, 2013)
Drama - 77 min.

Direção: Athanasios Karanikolas
Roteiro: Athanasios Karanikolas

com: Aenne Schwarz, Lena Vogt, Nina Horvath, Julian Keck

Reunião de amigos para celebrar as amizades - acertar as diferenças - do passado está longe de ser inovador. A história já foi abordada de inúmeras formas, seja em palhaçadas como Gente Grande ou em eficientes dramas como O Reencontro. Em Sonar, o diretor Athanasios Karanikolas se foca nos problemas desse encontro através das consequências de uma festa, refletindo sobre a juventude e o fim da amizade com o passar dos anos.

A câmera contempla a reunião em locais bucólicos, apresentando os personagens com a ótima fotografia, criando uma nostalgia no ambiente que se instala gradativamente na trama. As pessoas ali retratadas pouco oferecem de interessante no início, com seus diálogos arquetípicos e postura blasé. É quando a festa toma o rumo do filme que as revelações começam a surgir, com o bom uso da trilha pontuando o drama. E, como se trata de juventude é a bebida que serve como catalisador de verdades ("Queria ser beijado..."), amenizando o lugar comum que toma Sonar de assalto pontualmente.

Não que isso justifique os erros de roteiro no filme. Os depoimentos, tentando dar um parecer mais explícito dos sentimentos dos retratados em tela, soam desnecessários a cada vez que surgem. Tampouco eficiente é a decisão de trazer certa poética ao escopo, como na forçada leitura da carta de Franz sobre solidão. Karanikolas se sai melhor quando é sutil, ao sugerir que talvez a morte do amigo de todos tenha sido por solidão mesmo. Não estranhe se mal registrar a morte do homem no filme; ninguém ali mesmo liga.



Estruturando o último ato como observação sombria dos tempos mortos, o diretor consegue criar um jogo de relações interessante, com pontos altos no que parece escondido pelo tempo (o romance gay, os casais, a tensão sexual). Uma depressão pós-festa que até soa bem em tela, mas se limita através do ordinário de abordar o que já foi dito, ainda prejudicado pelo triste didatismo de vez em quando.

Subverter
o nostálgico é uma aposta intrigante, mas menos morosidade e mais dramaturgia teriam feito bem a Sonar.



domingo, 6 de outubro de 2013

Festival do Rio: Night Moves

Night Moves
(Night Moves, 2013)
Drama/Thriller - 112 min.

Direção: Kelly Reichardt
Roteiro: Jonathan Raymond, Kelly Reichardt

com: Dakota Fanning, Jesse Eisenberg, Peter Sarsgaard, Alia Shawkat

Numa discussão moral do que é mais importante, é natural o confronto entre elementos antagônicos, contrastantes. Estudos de personagem, onde a moral dos protagonistas é posta em cheque em prol do debate, rendem filmes ricos em argumentos e ideias. Desde os heróis errantes de Hitchcock até os cuidadosos dramas como O Voo e A Caça, o conflito entre o Certo e o Errado rende boas histórias. Em Night Moves, a diretora americana Kelly Reichardt dá um passo adiante em sua filmografia ao conceber um desses estudos, mas habilidosamente disfarçado como um thriller sobre terrorismo ecológico.

Em Meek’s Cutoff, o filmaço anterior de Reichardt, a aridez do deserto americano era registrada com propriedade, conferindo o tom necessário para a densa trama de travessia. Aqui, os planos em ângulos arrojados (como o ótimo tracking shot da bicicleta, no início) dão certa gravidade, uma urgência necessária à filmes de conspiração em geral. Conforme conhecemos os personagens, o discurso ecológico começa a aparecer sutil nas reuniões, sem entrar em discussões muito aprofundadas sobre o tema, apresentando dados difusos e esquecíveis. O roteiro de Jon Raymond e Reichardt foge do panfletário, ao preferir se construir em cima do plano dos personagens – e na interação entre eles. É visualmente que a diretora prefere comentar sobre seu discurso, optando por planos abertos que mostrar natureza, matas virgens, sempre buscando ilustrar algum ambiente mais vasto; com simplicidade, procura dar lastro às ações dos personagens.

A utilização da janela 1.85:1 de exibição, num belíssimo digital, também favorece o filme. Se em Meek’s Cutoff a americana subverteu – inteligentemente - qualquer guia de fotografia ao filmar em janela 1.33:1, suas intenções no novo trabalho são mais contidas. Night Moves não é nenhum manifesto pró-natureza para ter paisagens filmadas em Scope à todo momento – e a janela convencional prepara o filme para sua mudança de tom.
Até a represa, tudo caminha com um ritmo fluente e uma precisa trilha de Jeff Grace, crescendo a tensão até a catártica execução do plano.


E é aí que Reichardt puxa o tapete.

O suspense inicial se revela uma introdução ao real propósito do filme: observar a reação dos personagens à suas ações. O reservado protagonista Josh, vivido por Jesse Eisenberg (ameaçador e distante de seus papeis habituais), ganha foco e seu dilema moral entra em pauta. O sentimento do personagem transforma-se em conto sobre consequência. Não há nenhuma parede emocional para se apoiar: sua família aparece pela primeira vez com uma hora de filme, já explicitando seu distanciamento deles. E mesmo recorrendo à sua parceira Dena, Josh acaba subvertido, já que a menina se impõe como a voz da razão na segunda metade.

A parcimônia na construção de Josh é um dos elementos mais interessantes que Night Moves tem a oferecer. Recluso, o homem se isola das pessoas em uma festa, se revelando gradativamente mais amargurado – e a trilha se intensifica com louvor nesses atos. A catarse que toma os momentos que antecedem o epílogo do filme, terminando em um paranóico anticlímax, é o ponto no qual Reichardt mais toma partido como esteta. A diretora, que entende de atmosfera, utiliza de contrastes – a bela dança das sombras na festa – e closes distorcidos para catalisar os acontecimentos – e a sequência no condomínio é particularmente marcante, finalizada com uma fantasmagórica fumaça.


Muito se reclamou dessa divisão complexa entre os dois atos do longa, mas a verdade buscada por Reichardt e Raymond se encontra justamente no destoar entre o thriller e o drama. É um filme que entende bem a construção de expectativa e a subverte a favor de sua narrativa (o que já era uma constante em Meek’s Cutoff, com suas ambiciosas fusões e arcos incompletos).


Quem é fã da diretora não precisa desconfiar; Night Moves não é uma mudança de direção dos temas da americana, mas apenas um novo olhar. Mantém temas caros à cineasta – como o feminismo sutil na fala de Dakota Fanning ao comprar sementes -, mas oferece uma visão narrativa que casa o intimismo com o discurso, a ação com a reação. Reunião, portanto, do que os dois trabalhos anteriores de Kelly Reichardt tinham de melhor.

O Capital

O Capital
(Le Capital, 2012)
Drama - 113 min.

Direção: Costa-Gravas
Roteiro: Karim Boukercha, Costa-Gravas e Jean-Claude Grumberg

com: Gad Elmaleh, Gabriel Byrne, Natacha Régnier, Céline Sallette

Constatin Costa-Gravas é um dos maiores expoentes do cinema político da história. Com filmes como "Z", "A Confissão", "Estado do Sítio", "Desaparecido" e "Quarto Poder" apontou sua câmera para denunciar a política internacional, desmandos da mídia entre outros assuntos importantes e relevantes. Dessa vez Gravas talvez cansado de tantas denúncias políticas ou por perceber que não existem tantas diferenças assim entre os governos na maioria dos países, fala do mercado financeiro.

Em O Capital acompanha a historia de Marc Tourneuil, o protegido do presidente de um grande e opulento banco francês. Quando seu "mestre" é diagnosticado com câncer, o grupo de acionistas prefere apontar Marc como seu sucessor, já que por ser o mais jovem imaginam que o sujeito possa ser facilmente manipulado. Porém, o personagem interpretado por Gad Elmaleh mostra-se ardiloso e aos poucos sua sede de poder começa a ser vista na tela.

Costa-Gravas faz um filme sem heróis ou vilões aparentes e coloca todos os homens engravatados e que comandam as operações multinacionais bancárias na mesma laia. Curiosamente vê por outro aspecto as mulheres. Tanto a inocente mulher de Marc, como a engajada e competente funcionária francesa vivida por Céline Sallette e mesmo a bela modelo Nassim , são vistas com maior carinho. Se isso quer dizer que Gravas aponta o dedo para os homens e prefere retirar a responsabilidade das mulheres, não sei, mas é curioso notar que nem mesmo a filha do antigo presidente e vista como uma pessoa de má índole, apenas como incompetente para lidar com aquele mundo de politicagem.



Capital tem outra qualidade: não intelectualiza muito a respeito da moral ou da consciência dos personagens. Tudo que precisamos saber a respeito desses personagens, está ali impressa na tela. Marc é um sujeito sedento por poder e dinheiro, porque uma vez dentro desse aquário de tubarões sabe que não conseguirá sair sem sangrar e por isso quer conseguir a maior fatia do bolo possível.

Para não tirar a diversão do espectador, me reservo o direito de apenas comentar que a trama básica de O Capital é muito próxima de uma serie de escândalos (ou do que imaginamos acontecer) nos meandros dessas organizações poderosas. Mas, apesar de não apresentar nenhuma novidade temática, é nos ombros do banqueiro que toda a responsabilidade do filme funcionar está colocada. A interpretação de Elmaleh é segura e mesmo nos fazendo afeiçoar - afinal ele é o protagonista e com alguma frequência quebra a quarta parede e se dirige diretamente a câmera - nunca camufla seu caráter bastante duvidoso. A relação com a modelo Nassim, exemplifica muito bem essa questão. Por parte da projeção encaramos Marc como mais um sujeito ingênuo enfeitiçado por uma mulher bonita, mas quando a narrativa avança descobrimos o que de fato ele quer e sua relação com a garota, o que o torna ainda mais detestável.


O Capital é Costa Gravas nos dizendo que o jogo de poder das grandes corporações internacionais é sujo. Nada de novo. Mas sob esses clichês está um thriller intrigante e que (parece estar na moda) é sobre mais um sujeito de caráter muito duvidoso e que é seduzido pelo poder e que sabe (muito bem) jogar esse jogo cruel. Não tem o mesmo brilho de outros trabalhos do diretor, mas ainda assim dentro da produção que aborda política internacional, o velho grego ainda sabe muito bem como nos ironizar (a última cena do filme entrega essa intenção).

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Aposta Máxima

Aposta Máxima
(Runner, Runner, 2013)
Thriller - 91 min.

Direção: Brad Furman
Roteiro: Brian Koppelman e David Levien

com: Justin Timberlake, Ben Affleck, Gemma Arterton, Anthony Mackie

Em viagem para seu show no Rock in Rio desse ano, Justin Timberlake cedeu entrevista coletiva para promover esse Aposta Máxima e o fez com razão, já que esse é um daqueles "filmes-veículo" criados para determinados atores, na intenção de promover sua competência nas telas. Recentemente Taylor Lautner teve o seu momento no thriller de ação genérico Sem Saída, Jennifer Aniston estrelou algumas comédias com esse viés, assim como Vince Vaughn e Owen Wilson, Will Smith, Tom Cruise (com alguma frequência) entre tantos outros atores que vez ou outra deixam de lado algum projeto mais sério ou engajado para se dedicar a um exercício do "ego massageado" em produções que giram em terno de suas personas consagradas na tela grande. É o caso de Timberlake, que vinha se mostrando um ator competente - especialmente em Rede Social - e que esteve em dois "veículos" seguidos: In Time e nesse Aposta Máxima.

A trama gira em torno de Richie Furst (Justin Timberlake) um sujeito que cursa mestrado na prestigiada universidade de Princeton e paga suas mensalidade servindo como uma espécie de consultor para conseguir novos usuários em um site de pôquer online. Descoberto pelo reitor, sua permanência na universidade é ameaçada caso continue mantendo esse tipo de atividade dentro da instituição. Desesperado, resolve apostar todas as suas economias no tal site que participava com a intenção de conseguir a maior quantidade de dinheiro possível. O sujeito começa a ganhar, daí se empolga e tudo que acumulara se esvai em misteriosas rodadas de jogatina virtual. Depois de uma ajuda de um dos colegas, descobre que fora trapaceado e decide viajar até Costa Rica (local onde fica a sede do site) para reclamar, pedir esclarecimentos e ter seu dinheiro de volta.

Que bagunça não? A trama é confusa - e não complexa - já que não tem muita noção do que de fato é. As explicações para a trapaça e a maluca ideia do sujeito - em vez de simplesmente largar esse emprego e arrumar outra forma de ganhar dinheiro, afinal ele estava fazendo mestrado - é absurda. Enfim, uma vez lá acaba sendo convencido pelo dono da empresa (vivido por Ben Affleck) a trabalhar na mesma.



Aposta Máxima é um veiculo para demonstrar talento em Timberlake, um sujeito que é bom cantor (mesmo não do som que gosto de ouvir), melhor ainda como dançarino e vem demonstrando aptidão para a interpretação, mas nesse Aposta Máxima está completamente no automático, vivendo o sujeito de "bom coração" que se envolve em alguma coisa ilegal e precisa encontrar uma forma de se safar.

Ben Affleck interpreta aqui seu primeiro vilão de verdade desde Dogma, e vejo um retrocesso em relação aos seus últimos personagens. Ivan Block é o vilão sedutor, daqueles que encontra o ponto fraco do adversário e o adula para mantê-lo próximo e facilmente manipulável. Muito diferente do sujeito que precisava se provar em Argo ou do assaltante apaixonado de Atração Perigosa. Se alguém precisar de mais um motivo para reclamar da escolha do ator para ser o novo Batman, esse filme pode ajudar, já que o ator está em "modo canastrão" durante quase toda a projeção.

O filme é um thriller óbvio sem grandes destaques. Temos a femme fatale (Gemma Arterton, bronzeada e forçando seu sotaque britânico), o policial que torce as leis e que é tão cruel quanto o bandido que persegue (Anthony Mackie em interpretação exagerada), traumas do passado do protagonista, planos mirabolantes e aquele final onde o herói do filme consegue ser brilhante depois de parecer imbecil durante toda a projeção.



Mais um daqueles filmes (estou parecendo disco riscado) que parece datado de saída. A possível "crítica velada" ao jogo online soa infantil, o desenvolvimento dos personagens é raso e nem mesmo os belos cenários da Costa Rica (ou melhor Porto Rico que "dubla" o país centro americano) nos fazem nos interessar por essa trama, que peca até mesmo em explicar com correção o funcionamento da tal estrutura tão perigosa liderada por Affleck.

Como disse no começo do texto, Aposta Máxima é um veículo para Timberlake. Melhor teria sido para o cantor/dançarino/ator ter usado como cartão de visitas seu show no Rock in Rio.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Tá Chovendo Hambúrguer 2

Tá Chovendo Hambúrguer 2
(Cloudy with a Chance of Meatballs 2, 2013)
Comédia - 95 min.

Direção: Cody Cameron, Kris Pearn
Roteiro: John Francis Daley, Jonathan M. Goldstein, Erica Rivinoja

com as vozes de: Bill Hader, Anna Faris, James Caan, Will Forte, Andy Samberg

O primeiro Tá Chovendo Hambúrguer (tradução divertidinha para "Cloudy with a Chance of Meatballs", algo como Nublado com a Possibilidade de Almôndegas) era uma mistura de comédia rasgada e non-sense com história de superação, sobre encontrar seu lugar no mundo, algo que a maioria das animações mais infantis adora fazer. O que diferencia essa das outras animações com esse viés é seu humor anárquico que bebe na fonte de Chuck Jones e de outros desenhos da Warner. Os personagens são insanos e parecem - por quase toda a projeção - tomados de uma quantidade industrial de estimulantes, até em grau mais elevado do que o que acontecia no primeiro filme.

A trama desse segundo filme se inicia minutos após o encerramento do primeiro e para que aqueles que não viram ou não se recordam existe um pequeno flashback ilustrativo a respeito do que aconteceu até aquele momento. O inventor Flint Lockwood acaba de conseguir impedir que sua máquina de produzir comida destruísse sua ilha e recebe a visita ilustre de seu ídolo, o cientista Chester V, que no mesmo flashback citado é apresentado ao espectador como a grande referência do protagonista para se tornar um amante da ciência.

Rapidamente a trama apresenta seu tema principal e resgata os elementos mais importantes que fizeram do primeiro Tá Chovendo Hambúrguer uma animação que - se não era o supra sumo da qualidade - ao menos era diferente do padrão de animações mais infantis, abusando de um ritmo muito próximo ao dos desenhos animados seriados e com uma leve pitada das comédias screwballs com aquela visão ácida das coisas aliada a uma ingenuidade (é só ver como Flint e Sam se relacionam sendo um casal) tipica do período em que esse tipo de comédia era padrão nos Estados Unidos, além dos personagens divertidos como o garoto propaganda Brent McHale, o guarda mal encarado Earl Deveraux e o impagável cameraman Manny. Todos esses estão de volta além do casal protagonista, do macaco Steve e do pai do cientista (Tim Lockwood), com sua monocelha e mega bigode.


Não espere uma grande revelação ou uma trama complexa, já que é fácil para qualquer um adivinhar os rumos da projeção. É fácil perceber o que pretende de fato o cientista Chester V que é claramente inspirado em Steve Jobs, seja pelo visual do personagem, como pela ideia de comandar a empresa "mais legal do mundo". Outras características da personalidade do fundador da Apple aqui também são referenciadas, evidentemente com um viés sarcástico e irônico. A movimentação do personagem com seus braços finíssimos e que desafiam as leis da física são características que também remetem as animações seriadas, especialmente aquelas realizadas pelo Cartoon Network.

Mas, sem dúvida o mais divertido nessa nova aventura é a criação de uma quantidade industrial de personagens que misturam comida com animais, que surgem quando a máquina desaparece na ilha, local do primeiro filme. A criatividade nas misturas gera personagens como o Tacodilo, as Sushivelhas, a Cheaseburguer-aranha, além de hipopótamos de batata, elefantes de melancia entre muitas outras criaturas ricamente construídas fazem a trama fluir melhor visualmente contrastando com a história óbvia e com vários clichês (especialmente pensadas para crianças, imagino) sobre o bullying, acreditar nos amigos e naqueles que gostam de você entre outras coisas.

Flint continua histérico e profundamente ingênuo e isso começa a irritar em determinado momento do filme. Como no primeiro Tá Chovendo Hambúrguer, são os coadjuvantes que salvam a trama, sempre responsáveis pelas sacadas mais divertidas e de humor mais adulto. Longe de ser uma animação de exceção, mas divertida visualmente, criativa na forma de apresentar suas novas criaturas e de texto leve (apesar de não se aprofundar sobre nenhum dos assuntos que são alvo das lições que pretende dar), Tá Chovendo Hambúrguer 2 é uma sequência descente e que nos moldes de Malvado Favorito, também tem agora um mascote "fofinho" pra vender um monte de merchandising.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Festival do Rio: Nebraska

Nebraska
(Nebraska, 2013)
Drama - 115 min.

Direção: Alexander Payne
Roteiro: Bob Nelson

com: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach

Alexander Payne é um dos mais laureados diretores de temática independente, os famosos “humanistas” da cinematografia norte-americana – que inclui ainda o irregular Thomas McCarthy. Suas temáticas giram em torno do emotivo, do desenvolvimento familiar e daquela melancolia, o agridoce da existência. O fato de Payne ser um roteirista pouco criativo, como se percebe por Os Descendentes, não afeta Nebraska; o roteiro de Bob Nelson é preciso, pois captura esse coração do cinema de Payne e o refina, com bons resultados.
E o diretor sabe como extrair uma boa atuação. Se em Confissões de Schmidt era Jack Nicholson, em Os Descendentes era George Clooney - e aqui é Bruce Dern. O grande Dern encarna o que há de inteligente – e debilitado – em seu personagem de forma contida, mas marcante. Em seus ombros, e nos de Will Forte, Payne deposita o peso do Road-movie: simpático como se esperava, além de menos pretensioso que Os Descendentes.

As tonalidades acinzentadas do preto e branco da fotografia de Nebraska dão o tom desde o princípio. É a melancolia da idade, da existência, mas bastante solar e agradável. Essa leveza, capturada pela excelente trilha, se estende para a trama, que se inicia na crença de Woody (Dern) ter ganhado um milhão de dólares, para a partir daí investir em sua aproximação com o filho David, vivido por Forte. Não apenas a premissa tem seu quê de absurdo. No filme, os absurdos servem de válvula de escape; logo ao chegar ao estado, Woody perde sua dentadura na linha do trem. No retrato da cidadezinha de interior, Payne e Nelson lançam mão de alguma caricatura: caracterizam os primos de David como arquétipos do caipira norte-americano, constroem a mulher de Woody como uma metralhadora de diálogos. A direção ainda investe em quadros que mostram o absurdo do tédio da rotina ali, como os velhos reunidos na sala em plano geral, o que reforça o tom gentil com que o filme trabalha a relação de pai-filho e os temas que ela provoca.

É na dinâmica entre Woody e seu filho que Nebraska funciona além do indie-de-grife da vez. Na vida do sisudo David, nada é marcante: seu antigo relacionamento mal aparece em tela, seu carro é um Subaru Outback 95, sua postura é curvada, tentando se esconder do mundo. Quando começa a viagem com o pai, não parece mudar. Sua presença mal é notada pelos amigos do pai e os primos o sacaneiam falando da velocidade de seu carro. 


Porém, David é alertado por sua mãe: “nisso que pode se transformar”, num momento que Payne capta de forma interessante. Ao apontar para as falhas do pai, o diretor enquadra pai e filho paralelos em cena, um na profundidade e outro no foco, como se um fosse extensão do outro. Em um filme sobre passado, no qual quando uma criança aparece em tela é um choque, o americano percebe com sutileza o peso do passado na vida dos habitantes.

Numa cidade de muitos horizontes, planos abertos abundantes ressaltando tanto o isolamento quanto o tédio de uma população idosa, Payne encontra um palco apropriado para seu estudo. Os homens dormem ou observam os carros passando lentamente, as mulheres fofocam ou cozinham. Mesmo os adultos voltam à infância, agindo como crianças em um roubo. Ali, é até inevitável que David bata de frente com seu conformismo – o que também combina com seu pai, uma relíquia do passado que começa a não suportar o ambiente como extensão de seu comportamento. A descoberta afeta também os relacionamentos da vida dos protagonistas. Os melhores diálogos do filme são os fortes comentários de Woody nas conversas com o filho, seja falando sobre o seu casamento (seu amor verdadeiro, seus planos pra filhos), seja revelando sua afeição (“queria deixar algo pra vocês”). Uma meditação sobre o efeito do tempo refletido no espaço, o que agrada no contexto de Nebraska.


Não são reflexões propriamente novidadeiras, menos ainda perfeitas (David nunca deixa de ser o loser típico em busca de reinvenção que povoam os filmes do gênero), mas são relevantes, honestas. Alexander Payne é um diretor mediano, que não consegue evocar o agridoce da vida com o poder de uma Sofia Coppola, mas é competente o suficiente para criar um retrato sincero sobre a revitalização de um homem e a aproximação de pai e filho nos anacronismos do Nebraska.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

R.I.P.D. - Agentes do Além

R.I.P.D. - Agentes do Além
(R.I.P.D., 2013)
Ação/Comédia - 96 min.

Direção: Robert Schwentke
Roteiro: Phil Hay e Matt Manfredi

com: Ryan Reynolds, Jeff Bridges, Mary Louise Parker, Kevin Bacon, Stephanie Szostak

Se tivesse sido lançado em meados dos anos 90, RIPD seria muito melhor recebido, já que o filme parece ter saído de uma máquina do tempo diretamente de duas décadas atrás. Tanto em sua trama - que ganha a comparação óbvia com Homens de Preto - quanto (infelizmente) no visual, que não está entre as melhores produções visuais do ano (de fato, está entre as piores).

Conceitualmente a trama do filme é até interessante. Acompanha o policial Nick (Ryan Reynolds), um sujeito bacana, mas que parece envolvido em atividades ilegais ao lado de seu parceiro Hayes (Kevin Bacon). Quando ele percebe que sua motivação de dar um futuro bom para a sua mulher é alterada por uma conversa em uma manhã de sol com a referida (porque né, o sujeito está casado com a pessoa, mas parece não conhecê-la muito bem) que diz que quer apenas uma casa e amor (mais que lindeza), ele decide sair dos negócios ilegais. Nosso amigo Hayes, não aceita muito bem a negativa do personagem de Reynolds em continuar com as trambicagens e simplesmente mata o sujeito. Uma vez morto, Reynolds é contratado pela tal RIPD (em inglês Rest in Peace Department), a polícia dos mortos que impede que os que passaram dessa para uma melhor encham a paciência dos vivos. Recrutado pela excêntrica Proctor (Mary Louise Parker), Nick é obrigado a trabalhar com o cowboy do asfalto Roy (Jeff Bridges) e parte para a ação.

Como deu para perceber (espero), a trama lembra a dos Homens de Preto, substituindo os alienígenas pelos mortos, porém diferente do frescor e das boas atuações de Will Smith (o carisma em pessoa nessa produção) e Tommy Lee Jones (que depois desse filme, esteve em diversos outros basicamente adaptando esse personagem para as mais diferentes realidades), Ryan Reynolds e Jeff Bridges tem a sua mão um roteiro que nunca acerta na graça das piadas e que repete uma mesma situação bem pensada pelo roteiro à exaustão.



Uma vez que os agentes do além precisam circular no nosso mundo para ir atrás dos mortos que se escondem por aqui (nunca fica muito claro de que forma eles conseguem esse intento) sua fisionomia é alterada. Reynolds, uma vez na Terra é um velhinho chinês e Bridges uma loira voluptuosa com seios fartos e que abusa da sensualidade. Uma boa ideia e que é exaustivamente utilizada pela produção ao ponto de perder completamente a graça.

Assim como não tem muita graça a caracterização de Jeff Bridges, que faz de seu cowboy um arremedo de seu personagem em Bravura Indômita e seu sotaque praticamente indecifrável. Se na produção dos Coen, o sotaque era mais um elemento que caracteriza aquele homem como uma fera que não gostava do contato humano e muito menos de ser compreendido, aqui é apenas uma piada do roteiro e que não acerta, já que o personagem de Bridges não é um mentor, ou mais um amigo de Reynolds, mas um elemento cômico. Reynolds, entrega mais uma interpretação canastra e cheia de trejeitos que não funcionam. Seu desespero em reencontrar sua esposa e mostrar que "por trás" daquele chinês estava seu marido morto chega e irritar.

Assim como irrita o personagem de Kevin Bacon ser tão óbvio. Claro que ele é o vilão, já que nos primeiros minutos ele mata nosso protagonista, mas a ideia de fazer dele um super vilão com planos megalomaníacos simplesmente não convence, assim como a relação dos mortos e o espaço da Terra. Se existe tanta dificuldade para que os mortos escapem - e isso é dito mais de uma vez - como é que a polícia tem tanto trabalho? E o próprio plot da trama (que claro, não vou contar) que envolve essa dificuldade dos personagens é muito mal explicado e parece ter sido pensado apenas para dar um sentido maior a existência do vilão do filme. Ele não podia ser apenas um policial corrupto, ele precisava estar diretamente envolvido no plot central da trama.



Visualmente o filme é bem pobre. Em produções de ficção científica ou fantasia, os efeitos visuais são absolutamente fundamentais para criar o universo em que tais histórias se passam. Os cenários da polícia do além parecem excessivamente acanhados e por mais que se leve em consideração de que o que vemos é apenas um dos distritos policias dentre tantos existentes, a impressão é que existem apenas meia dúzia de cadeiras, um depósito e um cano dourado por onde os chefes da instituição se comunicam. Pior do que os cenários, são os mortos vivos. Quando estão cobertos de próteses até surgem divertidos, mas quando é necessário que os mesmos corram ou se movimentem e a computação gráfica é utilizada, é como se estivéssemos acompanhando uma produção da - já citada - década de noventa. Quando vemos a pele dos personagens computadorizados temos a impressão de estarmos vendo uma dezena de bonecos de borracha e que se movimentam de forma absolutamente irreal, e isso prejudica demais a credibilidade naquelas criaturas.

Para deixar a coisa ainda pior, o roteiro cria uma trama rocambolesca e bastante clichê (sim, envolve salvar o mundo) para resolvê-la em poucos minutos e de forma apressada e simplista. O mesmo vale para o vilão de Bacon, apresentado como um sujeito realmente manipulador e inteligente, mas que tem sua participação concluída de forma banal. RIPD é um abacaxi, daqueles azedos e praticamente intragáveis. Um desperdício de três atores cults (a saber: Jeff Bridges, Kevin Bacon e a musa Mary Louise Parker) em detrimento de mais um veículo equivocado e estrelado pelo cada vez mais fraco, Ryan Reynolds.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Família do Bagulho

Família do Bagulho
(We're the Millers, 2013)
Comédia - 110 min.

Direção: Rawson Marshall Tucker
Roteiro: Bob Fisher, Steve Faber, Sean Anders e John Morris

com: Jason Sudeikis, Jennifer Aniston, Emma Roberts, Will Poulter, Ed Helms

Vamos tirar logo o elefante da sala: a tradução "engraçadinha" para We're the Millers (Nós somos os Millers em tradução literal) é das mais medíocres da história recente. A ideia tenta remeter ao tema do filme (tráfico de quilos de maconha, o "bagulho") e fazer um trocadilho com Família do Barulho, entenderam (insira mentalmente aquele sinalzinho universal do "deu pra sacar"). É daqueles títulos infelizes que acha que dessa forma vai conseguir turbinar a graça da produção. Na realidade, um título assim só atrapalha a comercialização do filme, já que afasta o pessoal que não tem muita paciência com pastelão (o que o título indica e o filme não é).

A família Miller do título é formada quando o traficante de quinta David (Jason Sudeikis) perde todo seu dinheiro e maconha (produto que trafica) ao tentar ajudar um garoto ingênuo - sendo delicado - que mora no mesmo prédio que ele, a não ser espancado. O garoto - doado de um código de ética e respeito enorme - tentava salvar uma garota que vivia na rua de ser assaltada. Quando David precisa relatar o assalto ao seu fornecedor recebe um ultimato: ou ele vai até o México servir de "mula" para o transporte de drogas para seu "chefe" ou será sumariamente eliminado graças a suas dívidas assumidas a partir da perda da droga.

Tentando encontrar uma solução para ir e voltar sem ser preso, decide simular que está viajando com a família em um daqueles trailers que os americanos adoram ter. Os membros da família de mentira são o tal garoto ingênuo, Kenny (Will Poulter) e a menina "mendiga" Casey (Emma Roberts) e uma vizinha stripper (Jennifer Aniston) que serve como sua esposa. Juntos partem ao México em busca de drogas e é claro que as personalidades avessas e conflitantes dos personagens entram em choque e que tudo isso caminha para aquele clichê que o espectador já viu antes.


Vestida e vendida como "comédia politicamente incorreta", a produção tem muito pouco de fato de rebelde. Fala de drogas? Sim, mas sempre de uma forma profundamente caricata e reforçando os estereótipos de usuários e traficantes (especialmente os mexicanos). Tem "sexo"? Muito pouco e sempre de forma "engraçada" já que para o cineasta médio americano, sexo é uma coisa feita pra dar risada, principalmente se ela envolver alguma coisa diferente do "papai e mamãe", incluindo aí os momentos em que Jennifer Aniston usa seus dotes de stripper, sendo de longe a stripper com mais roupa que o cinema já mostrou.

Para piorar, não existe o frescor em falar e mostrar coisas "proibidas" como aconteceu no primeiro Se Beber, Não Case, Missão Madrinha de Casamento ou até mesmo em Projeto X. O filme lembra essa fase nova e cheia de mensagens positivas que os irmãos Farrelly (famosos por besteiras divertidas como Quem Vai Ficar com Mary? e Debi e Loide) vem passando em produções como "Passe Livre". Em meio a tanta "perversão", de fato aqueles personagens são caretinhas e só querem o mesmo que a dona de casa americana - aquela da cerca branca - também quer.

Sudeikis até se esforça em fazer graça, principalmente na primeira parte do filme, mas é engessado por um roteiro que vai castrando sua personalidade individualista e canalha. Will Poulter tem o trabalho mais simples, já que seu ingênuo e bobo Kenny é um clichê ambulante do garoto que não cresceu e está em busca de uma família de verdade, já que a sua inexiste. O mesmo vale para a garota Casey, que afirma várias vezes que tem uma casa, mas que prefere não estar nela. Seu gênio forte é a camuflagem daquela personagem da rebelde sem causa que precisa de uns abraços e palavras doces para se transformar. E Jennifer Aniston vive tentando fugir da imagem de Friends, engatando duas comédias politicamente incorretas em sequência, embora nessa segunda o politicamente incorreto fique apenas na superfície.


Errando muito mais do que acertando em suas piadas e com uma abundância de coadjuvantes (ainda mais) estereotipados do que seus protagonistas, a Família do Bagulho (e cá estou eu escrevendo esse medonho título mais uma vez) era uma ideia com potencial para um roadie movie divertido e realmente engraçado. Mas, talvez medroso pela censura ou com pudores sobre o tema, fica medindo piadas e quando parece que realmente vai ousar, explica ao público que aquele personagem tem bom coração ou que o vilão merece mesmo sofrer. Mesmo com uma cena final que talvez indique que aqueles personagens não levarão uma vida tão dentro da lei assim, as reais gargalhadas só surgem nas já batidas cenas de erros de gravação, onde dá pra notar que a alegria e a diversão encontrada pelos atores ao fazer o filme, infelizmente, não chegou até o público.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Festival do Rio: The Way, Way Back

The Way, Way Back
(The Way, Way Back, 2013)
Comédia/Drama - 103 min.

Direção: Nat Faxon, Jim Rash
Roteiro: Nat Faxon, Jim Rash

com: Liam James, Steve Carrell, Toni Collette, Sam Rockwell, Maya Rudolph

Ator da cultuada Community, Jim Rash é também conhecido por seus roteiros de séries de TV (inclusive para a própria Community). Junto com Nat Faxon, também roteirista e ator, ambos fazem sua primeira incursão como diretores em The Way, Way Back. É um trabalho charmoso, com um domínio de linguagem cinematográfica bom por parte de seus diretores, que, ainda que não passe incólume, consegue utilizar seus clichês com dignidade.

O roteiro segue Duncan, adolescente tímido e entediado, que precisará viajar com sua “nova família”, que inclui o namorado de sua mãe, Trent, e sua filha. No verão do lugar, ele passará pelo processo de amadurecimento que precisa. É um "coming of age" em todas as suas nuances – e os diretores não procuram fugir disso -, desde seus personagens arquétipos (o padrasto escroto, a menina alternativa, a patricinha, o sábio mentor do jovem, a mãe dispersa) até seu desenrolar dos fatos, que em nada subverte a narrativa comum dos filmes-de-amadurecimento americanos. O clima tropical, com os conflitos de mais uma família disfuncional, chega a lembrar Os Descendentes; um filme roteirizado pela dupla, vale lembrar.

Os fatores que tornam o filme diferenciado, no entanto, é seu tom leve, bastante feliz em seus pontuais alívios cômicos e conferindo um descompromisso eficiente, seu desenvolvimento de personagens e o bom ritmo da narrativa. O desenvolvimento melhor apresentado é o de Trent, o personagem vivido por um contido Steve Carell, já demonstrando seu caráter duvidoso de primeira. Enquadrado pelo espelho do carro em seu primeiro take, como uma figura opressora aos olhos de Duncan, o personagem se tornará o maior obstáculo para o amadurecimento do reprimido menino. Sua filha se faz apenas uma alegoria, um arquétipo ambulante, mas a relação de pai-e-filha serve bem para um contraponto com a relação de Duncan e sua mãe, Pam.


Pam, por sinal, se revela o maior trunfo dramático de Rash e Faxon. À primeira vista, a personagem parece apenas uma representação de mãe distante para Duncan. Porém, através de sutilezas em cena, a mulher se torna bem mais interessante, digna de discussão. Ao contar sua história sobre uma duna, Pam não arranca os risos que seus amigos conseguiram contando suas experiências. Durante o jantar, ela é enquadrada de longe, com uma iluminação sutil, como se fosse distante não apenas de Duncan, mas de todos ali. É uma outsider como Duncan, afinal, o que justifica bastante suas ações com o filho. É ao longo da narrativa que Pam vai tomando consciência disso (com a ajuda do menino), e se esforça para não apenas se misturar aos outros. O paralelo entre os “dois” coming-of-age (de Pam e Duncan) ganha maior abrangência, quando a personagem de AnnaSophia Robb fala sobre a tendência do lugar em transformar os adultos em crianças novamente (“it’s spring breaks for adults”), um questionamento deveras contemporâneo. E bem embasado pelos roteiristas, que demonstram entender bem algumas dessas estruturas emocionais modernas daqueles seres humanos.

A noção de carpintaria dramática dos diretores é notável, também, em outras situações. No primeiro ato, Duncan reclama com alguma constância do lugar, da praia, do calor. Seria válido desenvolver a maturidade do protagonista num local bucólico, como a própria praia, mas Rash e Faxon resolvem com certo brilhantismo a questão: elegem um parque aquático para ambientar as descobertas do menino. Um ambiente bucólico, mas que nunca deixa de ser artificial; a representação perfeita para um início de amadurecimento para Duncan.

Ainda assim, The Way, Way Back não consegue fugir de suas limitações e utiliza das soluções fáceis que costumam habitar os filmes do gênero. O amadurecimento do personagem soa didático à exaustão por vezes (Sam Rockwell não precisava dizer duas vezes o chavão “Ache seu próprio caminho!”), as piadas vez ou outra não funcionam. Ver uma AnnaSophia Robb distante, lendo na praia e conhecendo aquela música diferente, é um clichê indie dos mais manjados; tampouco eficiente é a ideia de mostrar Duncan divagando na praia. Além do que, bom, adolescente andando de bicicleta infantil não é a melhor das gags – tudo embalado por uma trilha correta, mas comum, de Rob Simonsen.



São características que deixam o filme imperfeito. Mas devido à completa honestidade da proposta de Rash e Faxon, The Way, Way Back termina agradável, um bom estudo de personagens e uma narrativa alegre, divertida. Não tem o ambicioso alcance dramático e a construção absurdamente precisa de Mud (um coming-of-age que funciona em diversos níveis), mas é menos pretensioso e mais competente que Os Descendentes. Rash e Faxon não só meramente contam sobre como chegar à vida adulta, mas criam pessoas que vivem e sentem isso de verdade.