sexta-feira, 30 de março de 2012

Fúria de Titãs 2

Fúria de Titãs 2
(Wrath of Titans, 2012)
Ação - 99 min.

Direção: Jonathan Liebesman
Roteiro: Dan Mazeau e David Johnson

Com: Sam Worthington, Ralph Fiennes, Liam Neeson, Edgar Ramirez, Rosamund Pike, Bill Nighy, Toby Kebbell 

O primeiro Fúria de Titãs é muito fraquinho. Ritmo truncado, uma tentativa sem sentido de dar profundidade a uma história que não suportava isso, figurinos exagerados, muita ação descerebrada e um plot que era muito complexo para o que se propunha. Em suma, um erro.

Esse segundo filme da franquia épica acerta em detalhes que o original parecia preguiçoso ou envergonhado de assumir. Em vez de uma tentativa de aprofundar os personagens ou criar um enredo complexo, com idas e vindas, traições e revelações de último minuto, se aposta no óbvio. Uma historia simplista, muita ação, batalhas épicas, monstros gigantes e deuses saindo na porrada.

O filme começa com um "previously" rápido para situar o espectador na historia do filme anterior, e em menos de dez minutos a primeira batalha acontece na tela e um ritmo que será mantido por toda a produção. Diferente do primeiro filme, a história é mais simples e os vilões, anti-heróis e mocinhos conhecidos desde o principio.


A trama gira em torno da traição de Hades e Ares (em sua primeira aparição na franquia) que ao começarem a dar poder ao titã caído Cronos (pai de Hades, Zeus e Poseidon) passam a ameaçar os deuses do Olimpo e a existência humana. Zeus, sabendo da ameaça, volta suas esperanças para seu filho Perseu, o herói do primeiro filme, que vive uma pacata existência como pescador ao lado do filho Hélio e em luto pela morte da esposa Io (também vista no primeiro filme). Perseu se nega a ajudar o pai, e quando Zeus e seu irmão Poseidon são sequestrados e quase mortos pelos traidores, entra na briga e ao lado de alguns aliados planeja invadir o Tártaro (morada de Hades e descrita como um gigantesco labirinto) e resgatar Zeus.

Simples e objetivo. Isso ajuda a enfatizar aquilo que Fúria de Titãs 2 tem como grande qualidade: as sequencias de ação. Mesmo ainda que o diretor Jonathan Liebesman (do péssimo Batalha de Los Angeles e do primeiro Fúria) tenha a irritante mania de não conseguir criar uma sequencia sem cortar a cada milésimo de segundo, quando o filme assume-se como um épico escapista cheio de monstros de CG, deuses cafonas e diálogos de peça infantil o filme funciona.

Os atores coadjuvantes, em especial o triunvirato formado por Liam Neeson (Zeus), Ralph Fiennes (Hades) e Edgar Ramirez (Ares) estão fazendo o melhor que podem com o que tem em mãos. Em especial Fiennes, é eficiente em construir um personagem que de vilão terrível vai se transformando em sujeito amargurado e por fim em anti-herói. Ramirez tem mais trabalho, já que as motivações de Ares são muito rasas. Embora não imagino que Fúria de Titãs 2 seja o veículo ideal para personagens complexos, é importante sabermos a motivação dos personagens, por mais que elas funcionem apenas como uma desculpa para explosões e monstros gigantes. As de Ares são básicas e mal construídas. Já Liam Neeson cada vez mais entregue aos personagens de mentor/guia/mestre parece se divertir novamente amparado pelos figurinos opulentos e pelos textos canastrões.


Nessa aventura, temos a adição de Bill Nighy, fazendo ele mesmo em versão grega como o deus Hefesto. Completa o núcleo humorístico, o ator Toby Kebbel, que faz do semideus Agenor um "bom ladrão", que acompanha Sam Worthington em mais uma atuação no automático, cheio dos mesmos tiques do filme anterior e de Avatar.

Mais o grande negócio de Fúria de Titãs 2 são mesmo seus efeitos visuais. A criação de Cronos é belíssima, que surge como uma criatura nascida da rocha, um monstro sem forma, que ao sugar a vida de Zeus - representado como um pequeno rio de algo que parece lava- vai adquirindo feições criadas de fogo, cinzas e pedra.

As batalhas todas grandiosas são muito boas, com ótimo ritmo apesar dos problemas crônicos de Liebesman com sua câmera. A primeira - que envolve Perseu e uma criatura mitológica, a Quimera - é a única que não apela para o piscou perdeu da edição e a câmera epiléptica. Para os padrões do que consideramos hoje filme de ação, apresenta até um "plano sequencia". E se a batalha rápida contra os ciclopes (a única falha em termos de efeitos visuais, já que estes surgem claramente artificiais) deixa a desejar, a sequencia em que os personagens se veem comprimidos no labirinto do Tártaro (que surge a principio como uma difícil tarefa a ser superada pelos heróis, mas que se revela facilmente solucionável, sendo uma falha grotesca no roteiro) e a batalha que encerra o filme são tudo aquilo que se espera de uma produção assim. A batalha final, em especial, é muito grandiosa, com a trilha sonora (muito boa, a cargo de Javier Navarrette) criando um tema épico e grandiloquente e ótimos momentos da fotografia, efeitos visuais e da montagem, que intercala duas ações diferentes sem - no entanto - deixar o espectador perdido.


Fúria de Titãs 2 é superior ao primeiro (seria um verdadeiro feito, conseguir produzir um filme pior), mas está longe - mesmo com os efeitos visuais datados - do clássico de 1981. Nesse, sobram boa ação e bom visual. Se salva da tragédia, mas não consegue atingir o Olimpo dos grandes épicos. Nem mesmo com a ajuda da coruja mecânica, resgatada do filme original.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Heleno

Heleno
(Heleno, 2012)
Drama - 116 min.

Direção: José Henrique Fonseca
Roteiro: Fernando Castets, José Henrique Fonseca, Felipe Bragança

Com: Rodrigo Santoro, Angie Cepeda, Alinne Moraes, Maurício Tizumba

É quase uma regra: jornalista de cultura (cinema em especial) não gosta ou não entende nada de futebol e esportes em geral; as vezes até com um ar pedante e cheio de arrogância em suas observações sobre esportes, como quem diz: "por que perder tempo com isso, enquanto podemos apreciar Resnais, De Sica e Bergman".

Bom, não faço parte desse time. Gosto de muitos esportes e acompanho não só o "nosso" futebol, como tenho até time (não, não vou contar qual é) como também gosto da NFL, NHL, MLB, UFC, automobilismo em geral, basquete, tênis entre muitos outros. Mas, de novo, em geral essa não é a regra. Mas, o que isso tem a ver com Heleno?

Explico. Pelo fato de gostar de futebol, acompanhar e até "estudar" sobre o assunto, conhecia a personagem antes de vê-lo na tela. Sabia de sua mística, e de toda a mitologia por trás do jogador. Sabia de muitas de suas aventuras e por isso, vê-lo em tela foi como observar uma historia conhecida chegando as telas. Claro, que muita coisa é nova, e muito do roteiro do filme é ideia original e não tem como ser comprovado ou conhecido anteriormente. Essa é a graça de uma biografia cinematográfica, o frescor das novidades e a forma como cada historia é apresentada a o público, conhecedor ou não dos elementos anteriores daqueles personagens.


Por isso, Heleno funciona não só para os (como eu) apaixonados por futebol, mas também para os apaixonados por cinema, pois o que o diretor José Henrique Fonseca fez foi acertar um filme que funciona para uma gama de interessados muito maior. Não é um filme sobre futebol, mas sobre um apaixonado.

Apaixonado pelo futebol, pelas mulheres, pelos excessos e pelo sucesso. Um sujeito diferente e muito fora de seu tempo. Um elegante boêmio, um irascível jogador, um amante insaciável, um homem difícil e um personagem único. Amparado por uma fotografia em preto e branco lindíssima e muito inteligente (o que dá destaque as cores dos uniformes dos times, ao ar melancólico da historia, deixando ainda mais mítico o personagem) Heleno é um grande trabalho e como o biografado, é charmoso e imperfeito, mas com momentos de genialidade.

É impossível não destacar Rodrigo Santoro. Em uma performance hipnótica e magistral, ele segue os passos de Robert De Niro e faz de Heleno o Jake La Motta brasileiro. Sem comparar a qualidade das interpretações ou mesmo dos filmes, é impossível não lembrar do trabalho de Scorsese, quando ouvimos a trilha sonora ou acompanhamos Heleno em um treino em sua passagem pelo Boca Juniors da Argentina, ou mesmo quando presenciamos as poucas - mais belíssimas - cenas de futebol que a produção faz questão de mostrar.


Santoro consegue criar a partir do mesmo modelo, três sujeitos diferentes: o Heleno astro do esporte, visceral, agressivo, raçudo e obsessivo, o Heleno galã, carinhoso mas viril, intenso e viciado em mulher e o Heleno do fim da vida, fantasmagórica sombra de um passado glorioso, doente, demente e sem um passado a se recordar.

Triste fim para uma figura tão estupenda quanto à apresentada no filme. Ao lado de Santoro, o ator Maurício Tizumba é outro achado monumental. Vivendo o enfermeiro que cuida do jogador no fim da sua vida, é sutil, simples, honesto e muito eficaz quando precisa demonstrar todo o carinho com que cuidava do jogador. O mesmo vale - em menor escala - para a atuação segura de Alinne Moraes, que como a esposa de Heleno, emociona e encanta sem fazer força, apenas amparada pelo roteiro seguro e lírico do filme.

Roteiro esse que é poético, apesar de bastante objetivo. Longe de ser complicado, usa do flashback para mostrar sem muita preocupação organizacional as diferentes facetas do biografado. É empolgante acompanhar as soluções simples para a mudança de tempos que a produção usa, assim como fica claro todo o carinho de todos os envolvidos com o filme que faziam.


O único revés do filme é a abordagem muito sutil e breve da questão da doença de Heleno. Uma frase dita pelo médico e só. É complicado em um filme longo e com momentos quase herméticos como esse, que aposta na poesia e que prega um discurso direto em outros momentos, closes muito fechados, uma fotografia estourada, ou seja, que apresenta muita informação visual na tela e que exige um pouco mais do espectador, que uma informação tão relevante para o filme surja de forma tão discreta.

Outra questão, e que divide as opiniões, é a questão meio vaga de como os diferentes períodos da vida de Heleno vão surgindo na tela. Não existe uma ligação muito clara entre os períodos e tudo é feito de forma fluída - para alguns, pode parecer até demais - e não se enxerga muito de futebol dentro de campo.

Poético mas bastante simples, caminhando entre o lirismo e o realismo, Heleno é o retrato de um homem que tinha tudo e destruiu-se sozinho. Um homem que podia ser o rei do mundo, mas que não abriu mão de nada. Um sujeito nada heroico, profundamente falível, um derrotado pela vida, um desgraçado genial, que assim como o filme inspirado em sua vida, tem momentos de profunda arte e beleza.

terça-feira, 27 de março de 2012

Desenrola

Desenrola
(Desenrola, 2011)
Drama/Comédia - 88 min.

Direção: Rosane Svartmann
Roteiro: Juliana Lins e Rosane Svartmann

Com: Olivia Torres, Lucas Salles, Kayky Brito, Vitor Thirê, Cláudia Ohana

O cinema brasileiro vem polarizando-se entre os filmes de autor e as comédias rasgadas com cara e jeito de televisão, produzidas aos montes, com a idéia clara de ganhar dinheiro. Faltam aqueles filmes no meio do campo, produzidos com a intenção de ganhar dinheiro é claro, mas com uma preocupação estética maior, com interpretações mais caprichadas e principalmente com conteúdo.

É o caso de Desenrola, que conta a história de Priscila, uma garota de 16 anos e suas aventuras na tentativa de perder a virgindade, conquistar sua paixão e amadurecer. O roteiro apesar de óbvio é esperto, e conta com bons diálogos. Tentando uma aproximação bastante crível de seus personagens, o filme de Rosane Svartman acerta ao não julgar seus personagens e dar espaço aos jovens atores para transformarem o texto em algo ainda mais próximo de suas realidades.

A óbvia comparação com Melhores Coisas do Mundo, prejudica o filme que sai perdendo em muitos fatores. Primeiro: a história de Melhores Coisas trata de um assunto mais pesado (dificuldades de aceitação, suicídio, depressão), segundo que a direção de Laís Bodansky (curiosamente ambos os filmes são dirigidos por mulheres) é muito mais inspirada e criativa do que a de Svartman, que parece refém de alguns pequenos vícios das séries de tv e novelas, e terceiro é que na média os atores de Melhores Coisas são ainda mais intensos e críveis que os de Desenrola (incluo ai o Fiuk, para desespero dos "hattters").


Desenrola não é ruim por essas comparações, só é mais leve e descompromissado. O fato de o filme ser baseado em uma pesquisa sobre sexualidade na adolescência ajuda a relativizar de forma palatável e compreensiva as encanações típicas da idade. Por outro lado, "premia" o espectador com as infames cenas das entrevistas em que uma série de garotas conta de forma didática suas experiências sexuais.

Uma grata surpresa é a seleção de jovens atores, quase todos muito bem. A jovem Olivia Torres é um talento a ser visto em novas produções. Representando aqui, toda a instabilidade típica da idade, as muitas dúvidas e a falta de traquejo social que faz dos adolescentes criaturas estranhas e exóticas. Acompanha a garota (também um talento a ser visto em novos filmes) a dupla formada por Lucas Salles (o falastrão Boca) e Vitor Thirê (o abobalhado Amaral) que roubam todas as cenas em que participam. A dupla tem química, funcionam muito bem juntos e tem excelente desempenho. Lucas ainda passa por uma metamorfose durante o filme, já que seu personagem vai ganhando importância no desenrolar da produção.


Entre os coadjuvantes, uma profusão de "globais". Passando pelas participações especiais de Marcelo Novaes e Letícia Spiller como pai e madrasta de Priscila (em divertida sequencia), Cláudia Ohana (a mãe da garota, com pouco tempo de tela, mas responsável por uma cena profundamente crível no final da produção) e até Pedro Bial (constrangedor como o apresentador de reality show travestido de professor).

Mas nada é tão ruim, como a atuação artificial de Kayky Brito como o galã e interesse amoroso da personagem principal. Tentando surgir como alguém com uma aura de superioridade intrínseca ao personagem, é um desfile de olhares de peixe morto, frases feitas e vergonha alheia. Uma dos motivos do filme perder pontos vem de sua falta de naturalidade que destoa de todo o restante do elenco.

Fotografia (luminosa, apostando nas muitas cores do filme), montagem (clássica, sem grandes invencionices), direção de arte e figurinos - apostando em uma série de cores quentes para destacar a intensidade da vida da garota e em uma série de acessórios, que vão sendo customizados ao longo do filme para representar suas muitas dúvidas - são de boa qualidade. Uma pena que a trilha sonora é equivocada, incomodando em alguns momentos, por sua falta de timing com a ação na tela. Os grafismos que pipocam pela tela na abertura e nos créditos finais são uma grande sacada, assim como a brilhante sequencia pós-créditos, que é criativa, engraçada e muito atual.


Mais o mais interessante e importante em Desenrola é a forma com que o filme trata de um assunto ainda "tabu" em uma sociedade cada vez mais retrograda e politicamente correta: virgindade. Longe de banalizar a situação, no entanto, é sábio ao relativizar sua importância. Não levanta bandeiras, mas posiciona-se firmemente contra ao culto da “virgindade é tudo", tão presente (assustadoramente) em pleno século XXI. Perder a virgindade, é mais um ato de nosso amadurecimento, e negar nossa própria natureza é um ato criminoso. Desenrola entende a situação dessa forma e de maneira moderna consegue defender a ideia de que não podemos nos privar de sermos nós mesmos, vivermos e agirmos de acordo com nossas consciências. Uma postura cada vez mais rara e que merece ser incentivada.



quinta-feira, 22 de março de 2012

Jogos Vorazes

Jogos Vorazes
(The Hunger Games, 2012)
Ação/Drama - 142 min.

Direção: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross, Suzanne Collins e Billy Ray

Com: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Wes Bentley, Stanley Tucci, Toby Jones, Donald Sutherland, Liam Hemsworth

Jogos Vorazes é uma ideia muito boa. Mesmo. Misturar mitos gregos (no caso, o do Minotauro), com uma versão anabolizada e contemporânea do Império Romano, ao lado de uma crítica aos reality shows e a violência na TV. Parece bom não? Uma pena, no entanto, que o desenvolvimento da historia seja raso e deficiente, apostando em deixar essa critica (muito) subentendida, de não desenvolver com mais afinco os personagens e em um ritmo de videoclipe que não combina com a quantidade de ideias jogadas na tela.

Em resumo, Jogos Vorazes fala de um futuro pós-apocalíptico onde a - hoje - América do Norte, se transformou em um grupo de distritos (curiosamente 13, assim como as 13 colônias fundadoras dos Estados Unidos) que juntos formam uma espécie de país chamado Panea. Depois de uma guerra civil, onde os distritos pobres (ou seja, todos) se uniram contra o poder central vindo de uma capital e foram derrotados, foram instituídos os tais Jogos Vorazes, que reúnem todo ano um garoto e uma garota como sacrifício a "memória dos caídos pela guerra". Os tais sacrifícios - no filme chamados de Tributos - são reunidos em uma arena (pelo que vemos de forma e estilo diferentes a cada ano) onde lutam até a morte, coroando todos os anos um novo vencedor. Esse torneio por sua vez, é transmitido para todo o país e é a grande forma de diversão que os habitantes desse mundo encontram.

Em termos cinematográficos, Jogos Vorazes é muito bem realizado. Sua direção de arte assumidamente brega e cafona é inteligente para o contexto da historia, que prega que os habitantes da capital vivem em uma completa onda hedonista e fora da realidade do mundo, por isso quando a personagem de Elizabeth Banks surge no começo do filme, diante de uma multidão de jovens no distrito 12, o contraste entre suas roupas cor de rosa (que a fazem parecer uma mistura entre aristocrata do tempo pré-revolução francesa com um poodle muito irritante) e as vestes simples e surradas de uma geração de jovens prontos para o sacrifício são importantes para situar o espectador - que tomará um choque, quando enxergar a ideia de figurinos e direção de arte escolhidas - do mundo em que ele acompanhará.


A crítica - novamente - realizada de forma sutil demais, ainda dá espaço para outros postos (em teoria) fúteis, como um "personal stylist" que ajuda os candidatos escolhidos para o jogo a se tornarem mais atraentes para eventuais patrocinadores, ou mesmo a personagem de Stanley Tucci, um apresentador de TV (ou algo assim) que tem um programa de entrevistas onde os personagens são apresentados ao público, e - novamente - tem a chance de "vender o peixe" e conquistar fãs e investidores.

O calcanhar de Aquiles do filme é o de apostar muito na rotina de treinos dos personagens, sem no entanto aprofundar a relação entre aqueles personagens. Ora, se teremos que acompanhar 24 garotos se matando pela vitoria e sobrevivência, seria muito interessante conhecermos aquela gente, para - quando eles forem morrendo - consigamos nos apegar a alguns deles. A exceção de uma garotinha que segue a personagem principal durante todo o filme e o seu parceiro de distrito, não ficamos torcendo ou mesmo conhecendo mais ninguém.

Quando o filme finalmente parte para o tal reality show, a violência vista de um massacre entre um grupo de pessoas, é brutalmente atenuada (talvez visando uma censura mais baixa) e a tal participação dos patrocinadores muito branda. Talvez se tivéssemos a chance de ver a coisa pelos olhos do espectador (tal como Show de Truman fez , ainda - e de longe - o melhor filme sobre a exploração da Tv e dos reality shows) poderíamos perceber a insanidade e o fanatismo dos espectadores pelo jogo.


Sei que nada disso está no livro (apesar de não ter lido, conversei bastante com diversas pessoas que o leram para tirar dúvidas que tinha em relação à obra) mas penso que a estrutura do livro (contado em primeira pessoa) apesar de muito complicada no cinema, poderia ser aproveitada. A ideia de Katniss (a personagem principal) ficar questionando a insanidade dos habitantes da capital com a disputa, poderia aparecer de alguma forma no filme.

Como disse, a aparente amoralidade que o diretor Gary Ross (do ótimo Minha Vida em Preto e Branco e do mediano Seabiscuit) mostra tudo ao seu redor pode ser confundida com apologia por alguns espectadores. Não é minha visão. Ross é expositivo, mostra e pede que o espectador entenda e também se choque com aquela população abobalhada e sedenta de sangue, e que não considera a morte dos tais tributos como absurda.

Espero que o público que acompanhe o filme perceba essa ideia e não a confunda com apologia a violência, porque não parece ser essa a intenção do filme. O que não o exime de ser raso na relação dos personagens com o mundo ao redor. Se aceita muito fácil a situação, o que talvez também seja outra crítica velada, e os jovens atores coadjuvantes têm pouco a fazer já que seus personagens praticamente não existem.


Os mais velhos que acompanham nossa heroína, também tem pouco a fazer e a exceção de Woody Harrelson que se diverte como o treinador/conselheiro dos escolhidos vindos do distrito 12. Fazendo de Haymitch um sujeito mal humorado, que está nessa vida embora visivelmente discorde dela, sempre com observações irônicas e de humor negro é um personagem talhado para Harrelson. Já os demais têm personagens que são simplórios e portanto tem pouco a acrescentar. Wes Bentley é mais notado por seu exótico (e complexo) corte de barba do que por sua atuação como o "mestre do jogo", assim como Donald Sutherland - esse com uma vistosa barba digna de um papai Noel - que passa o filme inteiro entre caretas enfezadas e colocações num inglês praticamente incompreensível. Outro que se destaca é Stanley Tucci, à vontade como o tal apresentador de tv, irônico, engraçado e vestindo a carapuça de mestre de cerimônias de um jogo doentio ao lado do parceiro Toby Jones, que também está bem.

Mas toda a responsabilidade do filme está mesmo nos belos ombros de Jennifer Lawrence, essa atriz talentosa e versátil, e que se não tiver nenhum problema durante sua carreira, será uma das mais importantes de sua geração. Surgida no drama intenso Inverno da Alma, Jogos Vorazes marca sua segunda aparição em um blockbuster, e novamente (como havia feito em X-Men: Primeira Classe) se sai muito bem. Conseguindo caminhar entre o drama (a cena em que sua personagem precisa enterrar outra durante os jogos é emocionante), as cenas de ação e até mesmo o romance, a atriz se sai muito bem.

Seu coadjuvante principal, Josh Hutcherson (conhecido por Viagem ao Centro da Terra, Minhas Mães e meu Pai, Ponte para Terabítia entre outros) faz de Peeta um sujeito com problemas de autoestima e apaixonado. Longe de ser um ator tão interessante quanto Jennifer, não compromete e mesmo parecendo um pouco deslocado quando as cenas de ação surgem, não está mal no filme.


Diferente do que vem sendo vendido por aí, Jogos Vorazes não usa do romance como a série Crepúsculo (pelo menos nesse primeiro filme), e apesar de encerrar o filme com um gancho que pode apontar para uma historia que aposte mais nesse sub-gênero, não é esse o foco do filme. Diferente do que acontece com a heroína da serie dos vampiros, Katniss é uma menina forte e profundamente decidida e pró-ativa, e que enxerga a paixão e o amor em planos secundários, já que sua realidade a faz se importar mais em ter o que comer e - no caso - de sobreviver, do que o de "encontrar um amor". Mesmo assim, o romance também está presente, o que pode ampliar o escopo da produção, atraindo um público ainda mais abrangente.

Jogos Vorazes, como disse no início é uma ótima ideia, e confesso que me instigou a ler os livros (o que não é fácil de acontecer, assumo), embora o filme seja raso nas discussões que propõe. Espero encontrar essa intenção nos livros da série, que pretendo ler. Não chega a ser ruim, e é correto em tudo que se propõe, mas não consigo deixar de sentir que aqui, se perdeu uma chance enorme, de transformar Jogos Vorazes em mais do que o blockbuster que certamente se tornará. Perdeu-se a chance de transformá-lo em um libelo contra a violência de forma mais direta, e mais aguda atingindo diretamente o público leitor e consumidor de cinema nos dias de hoje. Esperemos que na segunda parte (dos quatro filmes que serão produzidos baseados nos três livros da série) esses temas ganhem força e se tornem mais importantes para a historia contada na tela.

terça-feira, 20 de março de 2012

Paul - O Alien Fugitivo

Paul  - O Alien Fugitivo
(Paul, 2011)
Comédia - 104 min.

Direção: Gregg Motolla
Roteiro: Nick Frost e Simon Pegg

Com: Simon Pegg, Nick Frost, Jason Bateman, Jeffrey Tambor, Jane Lynch, Bill Hader e a voz de Seth Rogen



Simon Pegg e Nick Frost exemplos vivos de que uma boa dupla não precisa ser bonita ou cantar música sertaneja. Simon é ruivo, branquelo, magricela e parece estar sempre irritado em seus filmes. Nick é gordo, tem cabelo escorrido, uma pinta de quem não conseguiria correr 100 metros nem que isso fosse salvar sua vida e está sempre na estratosfera em seus filmes.


E mesmo assim, Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso são duas das mais geniais comédias do século XXI. O segredo? Edgar Wright. Sim, o mesmo que dirigiu o atualíssimo e brilhante Scott Pilgrim contra o Mundo e que foi o diretor das duas pérolas citadas.


Paul, a comédia nerd sobre alienígenas é a primeira história de Pegg & Frost que não conta com roteiro e direção de Wright. O texto ficou a cargo da própria dupla e a direção do americano Greg Motolla (Adventureland e Superbad). Parecia uma combinação interessante. Comediantes britânicos sob a batuta de um diretor com experiência em comédias adolescentes descoladas, com uma tonelada e meia de referências a cultura pop e nerd e uma trama non-sense que poderia ser satírica e original, dentro do que se propunha.



Edgar Wright fez falta por aqui. Mesmo com Pegg & Frost afinados, o filme sofre de coesão e de uma série de pequenos problemas que o deixam sem ritmo e atrapalhado. Falta uma história no meio de tanta piada. O plot conta a história de dois amigos nerds ingleses que viajam aos Estados Unidos para visitarem a Comic-Con (para quem não conhece a maior feira de cultura pop/nerd do planeta) e seguirem viagem rumo aos principais pontos de avistamentos de OVNIS do país. Pegg é o ilustrador Graeme Willy, parceiro de longa data do escritor de ficção científica Clive Gollins (Nick Frost), dois nerds abobalhados mas inocentes, que durante sua viagem acabam encontrando um alienígena ranzinza, desbocado e metido a engraçadinho chamado Paul (dublado pelo chato Seth Rogen). A história confusa demais para uma brincadeira satírica ainda envolve uma conspiração governamental, fanáticos religiosos e até mesmo caipiras nervosos. Uma salada indigesta que não aconteceria com um diretor de mão mais leve e menos dependente do roteiro, que parece perdidinho.


Existem personagens demais em Paul. Além da dupla de nerds e do alienígena, encontram um escritor celebridade, dois agentes do governo que lembram Debi & Lóide, outro que parece ter saído da figuração de Homens de Preto, uma misteriosa voz que comanda com pulso firme os agentes, uma garçonete excêntrica, uma garota caolha (sim, caolha) e seu pai fanático, além de uma velhinha perturbada.


Tudo isso em menos de duas horas de filme, sendo que a imensa maioria desses personagens, surge após há meia hora inicial. A falta de uma história (basicamente o alienígena está em fuga e quer voltar ao planeta, mas não se sabe, e mal se explica o que o fez chegar aqui, por exemplo) faz de Paul um road movie bizarro, um cruzamento entre Fanboys (cult nerd) e as comédias bobocas de Adam Sandler ou do humor sem graça dos irmãos Farrelly.



Para piorar a situação esses coadjuvantes atuam no automático e a exceção de Jason Bateman (que interpreta o figurante de Homens de Preto), parecem artificiais em todos os momentos. Apesar da crítica interessante e de boas piadas aqui e ali (as com referência ao fanatismo religioso são boas) não existe uma "cola" que una tanta história paralela, que segue como uma longa procissão rumo a um clímax over e óbvio.


Paul, o personagem, é um produto da tecnologia moderna. Infelizmente o trabalho com o personagem é apenas mediano, uma tentativa de "segunda divisão" de criar um Gollum camarada. Notem como o diretor não ousou muito com planos mais abertos, tentando deixar o filme mais claustrofóbico, o que é incomum em road movies. Aposto como essa decisão surgiu depois - ou mesmo durante o processo - da criação do personagem virtual. Notaram que o personagem não era convincente e que talvez sob o efeito das luzes (naturais e artificiais) a sensação de "coisa virtual" seria ainda maior. Optaram por diminuir o espaço para o personagem se movimentar, arriscando muito pouco nesse quesito, mantendo a câmera sempre próxima ao alienígena. Nas poucas cenas de maior escopo, fica claro que aquele personagem é um estranho ao ambiente em que as cenas foram filmadas. Para ajudar, a dublagem de Seth Rogen - como quase tudo que o ator se envolve - é fraca. Praticamente - e certamente de forma proposital - não atuando, Paul é a versão cinzenta, careca e mais magra de Rogen. Uma escolha arriscada já que Rogen não é um ator de grandes recursos.


Os nerds por sua vez vão salivar com as inúmeras referências ao mundinho geek. Citações claras de Star Wars (e sua trilha sonora) e Star Trek, Arquivo X, MAC - O extraterrestre (lembram?) e até o clássico Amargo Pesadelo são lembrados pelo filme, o que pode transformá-lo em peça cult para um nicho. As participações especiais (uma homenagem na verdade) não são ruins, mas também entram na conta do fetiche.



Uma pena que Pegg & Frost tenham esquecido de que um filme não funciona apenas no papel. Se tivessem menos controle na brincadeira (minha impressão) ou um diretor mais ousado (outra impressão), Paul fosse mais do que uma coleção de piadas nerds, comentários sobre os Estados Unidos e escatologia. Faltou a sutileza e as grandes sacadas de Chumbo Grosso e o timing de Todo Mundo Quase Morto. Sobraram o fetiche e a certeza que a dupla fez aqui um filme "direct to video", uma obra menor que não ofende, mas diverte muito menos do que poderia.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Raul - O Início, o Fim e o Meio

Raul - O Início, o Fim e o Meio
(Raul - O Início, o Fim e Meio, 2012)
Documentário - 120 min.

Direção: Walter Carvalho
Roteiro: Leonardo Gudel

Raul Seixas é um mito. Sabemos quando um artista transcende o espectro corporal quando anos após sua morte ele continua sendo reverenciado por fãs e tem sua obra descoberta por novas gerações. Enquadram-se nessa categoria, os casos de Elvis Presley, Michael Jackson (embora esse seja um "fenômeno" recente, mas que tende somente a crescer com o tempo), John Lennon e no Brasil de Renato Russo (que ganha filme esse ano), Cazuza (que já teve o seu) e de Raul, que ganha essa bela homenagem, honesta e direta, talvez como o próprio gostaria de se ver retratado.

Quem comanda é Walter Carvalho, grande fotógrafo brasileiro, responsável por trabalhos impecáveis em filmes como: Heleno (que chega aos cinemas semana que vem), O Céu de Suely, Baixio das Bestas, Cazuza, Amarelo Manga, Abril Despedaçado, Lavoura Arcaica, Central do Brasil entre muitos outros. Seu trabalho de direção anterior, havia sido o equivocado Budapeste, baseado no livro de Caetano Veloso e que tinha problemas estruturais e de ritmo sérios.

Aqui ele realizou um trabalho de arqueologia: reuniu uma dezena de imagens, áudios e vídeos cobrindo toda a carreira de Raul Seixas, desde a infância (em especial a partir do seu início na música) até seu último show, com direito a imagens de bastidores do último encontro entre Raul e seu parceiro mais famoso, o escritor Paulo Coelho, gravações de quando Raul era um "infante roqueiro", entre os muitos depoimentos de familiares, filhos, esposas, namoradas, amantes, amigos, analistas, fãs e jornalistas, que compõe um verdadeiro mosaico sobre o artista Raul Seixas.


Raul - pelo menos nas últimas duas décadas - tem sobrevivido entre fãs e fanáticos (esses mais transloucados) e a paródia e sátira. Os fãs mantém viva a memória do artista e o reverenciam de todas as formas possíveis, suas canções e sua figura, chegando próximo - e às vezes até passando - do limite do ridículo, causando uma impressão galhofeira do artista.

O que o documentário faz - em especial para uma geração mais nova - é a de tirar a sensação de excentricidade que a figura (e principalmente muitos fãs) de Raul tem no inconsciente coletivo. Por ser honesto e sem muitas restrições, o filme se assume como uma homenagem ao artista, ao homem e não ao personagem.

Ao apostar nisso, o filme ganha muito, e assim como Simonal - Você Não Sabe o Duro que eu dei, é feliz ao não afastar o fã com um retrato verdadeiro (e aqui cabe um parêntese, já que não sou um profundo conhecedor da historia de Raul, e caso existam problemas no filme, por favor, peço aos leitores que apontem) mas pensa também naquele que não conhece a trajetória do biografado, ou daqueles que tem pré-conceitos com o artista.


Vale lembrar também que o famigerado envolvimento de Raul com o ocultismo também é mostrado, com direito a imagens de antigos parceiros/amigos/conhecidos do cantor praticando toda uma serie de heresias (se você for muito religioso talvez se incomode com isso) e até sacrificando animais (imagino que reais, o que é outro absurdo e realmente revoltante, embora faça sentido como ilustração da insanidade que aquele pessoal propagava).

Além disso, é muito interessante ver e conhecer os rebentos do artista, gente que vive aqui e nos Estados Unidos, e que muita gente talvez não fizesse ideia da existência. De forma direta o filme mostra a relação pessoal do homem Raul Seixas com seus filhos e que rende momentos muito emotivos.

Apostando em uma narrativa fluida e que não se importa em ir a voltar no tempo (mesmo mantendo uma linha cronológica razoável) o filme acerta em quase tudo. Talvez peque por não se aprofundar na doença de Raul, e no seu abuso de drogas e álcool, mas fica claro que todos ao seu redor sabiam de seus vícios, e na medida do que foi possível (e aqui cabe outra interrogação) tentaram ajudar o cantor.


O que mais me impressionou no filme, foi a visão de um Raul em seu auge, em forma, ensandecido mostrando o porquê foi um artista tão importante e único na música brasileira. E que deixa uma pergunta sem resposta: por que não temos mais artistas essencialmente populares como Raul, com algo a dizer? Por que a musica popular hoje, não passa de arremedos de modinhas passageiras e uma coleção de gente insossa que diz muito pouco, ou quase nada?

Mesmo não sendo fã do artista, reconheço que nos falta alguém que pense fora do quadrado e que seja essencialmente um homem do povo.

domingo, 18 de março de 2012

Habemus Papam

Habemus Papam
(Habemus Papam, 2011)
Drama - 102 min.

Direção: Nanni Moretti
Roteiro: Nanni Moretti, Francesco Piccolo e Federica Pontremoli

Com: Michel Piccoli, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Nanni Moretti e Margheritta Buy

Nanni Moretti é um provocador. Desde O Quarto do Filho e principalmente com Il Caimano, o diretor italiano nunca pareceu ter medo de fustigar a toca da cascavel e ser picado. Em Habemus Papam, Moretti aponta sua câmera para o maior dos símbolos da Itália, e um dos maiores (se não for o maior) símbolo de fé do planeta: o papa.

Mas, faz de forma sutil e leve, divertindo-se (e divertindo o espectador) pelo caminho, ao mesmo tempo em que não tem dó de acompanhar o passo a passo para o "apocalipse católico". Desde os primeiros planos, Moretti já coloca em cheque toda a aura de inspiração divina que os bispos, padres e afins afirmam ter, colocando-os todos como questionadores da fé, pedindo a Deus que os tire da roubada que é ser papa.

Acompanhando a votação secreta e cheia de simbolismos da eleição de um novo papa, Moretti aproveita para transformar uma simples eleição em uma primeira mostra de que qualquer um dos que fosse eleito teria problemas sérios em lidar com uma igreja atrasada, cheia de dogmas mais que deficientes e que vive em uma aura de perfeição asséptica embalada por diversos rituais desnecessários que visam apenas a manutenção de um estado de profunda afetação e que mantém alheio do mundo que o cerca. Essa é a visão de Moretti daqueles muros que cercam o menor país do mundo, que está encravado no centro de Roma.


Quando o papa (intitulado assim no filme e interpretado por Michel Piccoli) é eleito, depois de duas votações, onde fica claro que foi eleito o com menor poder político para gritar contra sua indicação, ele passa por uma profunda crise emocional, fazendo-o não aparecer para a multidão que o espera dando a tradicional benção e fazendo seu discurso de "posse".

É chamado o psiquiatra (interpretado pelo próprio Moretti) que se coloca como o agente do caos em meio aquele pasmaceira de padres travados, bispos cheios de dedos e arcebispos querendo "fugir" para tomar um cafezinho da esquina.

Apesar de aparentar uma acidez sulfúrica, Habemus Papam é sim uma critica direta a política do catolicismo, mas o faz com muito bom humor e uma leveza quase patética, o que combina perfeitamente com as situações do filme, seja a tentativa de encobrir uma fuga do pontífice (que é substituído por um guarda gorducho que tem funções especificas para levantar o moral dos cardeais), até as muitas regras de conduta das sessões psiquiátricas do papa, onde uma serie de problemas não podem ser abordados, passando pela interpretação contida mais intensa do veterano Picooli, que faz do papa uma figura trágica, um homem perdido em busca de um norte em sua vida fadada a um destino que talvez não seja o ideal para ele.


Moretti acerta em cheio quando em meio ao caos da situação de um papa que não quer ser papa, insere ainda mais caos na mistura, humanizando de vez aquelas figuras tidas como perfeitas e seguidoras impiedosas da fé. Propondo uma competição esportiva que visualmente é muito bem conduzida, Moretti aprofunda ainda mais sua tese de que: a igreja falha quando esquece que seus condutores são antes de mais nada, humanos e que como tal, falíveis e dotados de problemas e questionamentos.

Habemus Papam é intenso, engraçado, com direção de arte belíssima (e uma reconstrução dos ambientes "papais" muito elegante), e que consegue criticar a maior instituição do mundo de maneira impar no cinema moderno. Moretti prefere não apontar os canhões para as torres de São Pedro, mas se infiltrar pelo subsolo e plantar a semente do caos no solo arenoso do Vaticano.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Shame

Shame
(Shame, 2011)
Drama - 101 min.

Direção: Steve McQueen
Roteiro: Abi Morgan, Steve McQueen

Com: Michael Fassbender, Carey Mulligan

Artista plástico conhecido, o londrino Steve McQueen iniciou sua carreira no cinema com o intimista drama Hunger, sobre a greve de fome de um prisioneiro do IRA. Estrelado pelo alemão Michael Fassbender, o filme colocou ambos no caminho do estrelato e, de quebra, ainda proporcionou a demonstração máxima do talento de cada um dos profissionais. Enquanto McQueen conduzia a história com personalidade e investia em takes inteiros (incluindo um de 17 minutos), Fassbender realizava um verdadeiro tour de force físico e mental, exaurindo sua própria persona em prol da atuação.

Logo, o caminho natural de McQueen em seu segundo trabalho era a afirmação de uma identidade para si mesmo na Sétima Arte. Em Shame, uma dramática jornada de um nova-iorquino compulsivo por sexo, McQueen chama Fassbender para recriar o desconfortável ambiente do filme de 2009 e aplicá-lo num drama contemporâneo. E por contemporaneidade não se aplica só pelo período em que a história se passa (Hunger se passava nos anos 80, Shame na atualidade), mas pelos temas com que a mesma trabalha.

E de pós-moderno, Shame tem até os ossos. Arrojado, subversivo e visceral, o registro da caótica rotina de Brandon, o viciado vivido por Fassbender, é um tenaz debate sobre o relacionamento interpessoal no século XXI vestido de estudo sexual de personagem. E se naturalmente acaba-se criando duas camadas para a narrativa, é fascinante perceber como McQueen torna-as complementares sem esforço.




Brandon acorda em seu apartamento. O que acabou de fazer? O cansaço em sua face é visível e seu corpo, um tanto esbelto porém exausto, parece ter sofrido um leve revés. Inquieto após instantes em sua postura congelada, o protagonista abre a persiana (o que gera o imponente surgimento do título) e vai em direção da sala. Nota-se que, asséptico, o ambiente é sustentado por uma arquitetura econômica e moderna, de uma frieza ímpar. Seu telefone toca mas, seja lá quem for, não merece ser atendido. No metrô, provavelmente indo para seu trabalho, Brandon olha uma mulher. Sua expressão encara a moça sem pudores, apenas com desejo. Será que ela quer? Será que poderia satisfazer seu desejo com ela, rapidamente? Aos poucos, ela vai se abrindo. Uma cruzada de pernas serve como ponto de virada. Porém, a expressão da ruiva muda. Um desespero toma conta de seus pensamentos. A frieza de seu olhar talvez tenha a assustado. Quando está saindo, ela deixa escapar uma aliança em seu dedo. Mesmo a procurando, ele não a acha.

Sutil, McQueen começa a sugerir os problemas do personagem logo ao mesmo tempo em que introduz sua rotina. Não é por acaso que todo sexo termina com a abertura da persiana. Também não é o fato dos enquadramentos iniciais serem parecidos: no final, a rotina é conturbada de Brandon é conturbada assim mesmo. Nada de novo (além do sexo) parece acontecer, o que angustia mais as coisas. As cenas constantemente se misturam devido á precisa montagem de Joe Walker. Sua existência é tão estagnada, esquemática, que não sabemos o tempo em que elas se passam. Não é por mera estilística: a rotina se confunde por ser idêntica, mecânica. Não estamos diante de uma incursão desesperada e inconsciente ao inferno do vício; estamos diante da destruição que, contemplada e já estabelecida, será subvertida até o vazio da vida que, em questão de tempo, será descoberto.

Qual seria, então, o gatilho da detecção desse vazio? Mesmo mentalmente refém e emocionalmente distante, o protagonista sobrevive com sua condição da maneira que consegue. Seu aspecto gélido também ajuda, afinal um sujeito sem emoções genuínas pode suportar melhor um vício. Da onde surgiu essa falta de tato, de calor humano? O aspecto estático da estupenda fotografia contemporânea de Sean Bobbitt está estabelecido com clareza quando subitamente, ao ver Brandon entrar em seu apartamento, ele muda. A câmera na mão surge e o aflito protagonista descobre que sua irmã Sissy está, nua, tomando banho em sua casa. E começa a conversar de forma afetiva, calorosa.




É raro ver projetos que apostam em uma abordagem essencialmente visual para si, mas Shame vai além ao ser obsessivamente cuidadoso com suas composições de quadros, aliando-os facilmente a estrutura do roteiro de McQueen e Abi Morgan. Sua irmã está ali. Sua voz parece familiar. Por que a câmera ficou tremida abruptamente? Por que Brandon demonstra tanta aflição? Seria ela a voz do telefone, o desejo incubado, a razão da frieza e, ainda, o gatilho do vazio?

Ao sair com seu chefe para ver a apresentação de Sissy, Brandon parece desconfortável. Não há coisa pior para um viciado, adaptado á sua rotina, ser tirado de sua zona de conforto. Se Sissy já se demonstrou emocional (e ameaçadora ao padrão sisudo do irmão), sair para admirar seu canto pode apenas piorar as coisas. Ela canta "New York, New York" de forma melancólica. Então, registrado em um extenuante contraplano, Brandon, ali, percebe que sua irmã é sofrida justamente por ser um espelho completo á sua personalidade. Mas não demonstra surpresa: será que ela já era assim e, por conta da impessoalidade que seu vício o fez passar, Brandon tinha medo da volta da mulher?

A falta de afeto é o que persegue Sissy; a presença dele, o que aflige Brandon. Após a cantoria, Brandon é obrigado a ouvir o orgasmo de sua irmã com o chefe, dentro de sua casa. O desespero toma conta de sua mente, a câmera treme novamente, os gritos de prazer ficam cada vez mais perturbadores. É péssimo ver sua irmã fazendo sexo com um canalha qualquer, que a usará como diversos homens? Pode até ser, mas não importa: o frenesi mental que é vê-la com outro cara sem ser você é o que explode sua frivolidade. Quando Brandon se distanciou da irmã, não foi porque a odiava; foi, sim, porque além de perigosamente sensorial, ela incitava seu desejo mais primitivo. Sem que ele pudesse ser saciado. E um desejo doentio que fica trancado, com o tempo, só pode desencadear um fato.




O vício.

Obviamente, Shame não concede respostas fáceis ao espectador. Não é apenas por sua irmã que Brandon é assim, mas é o motivo/gatilho que move a narrativa. O sexo então entra em segundo plano. Shame pode até tratar sobre as obsessões de seu protagonista, de estudar e destruir a rotina de controle do vício que o mesmo estabeleceu, mas é um riquíssimo pano de fundo para o debate sobre a visão do mundo contemporâneo através dos relacionamentos, sejam eles afetivos, profissionais, camaradas ou, claro, sexuais.

As amizades no filme são algo escasso. O yuppie só se encontra com seus amigos para beber e se encontrar com mulheres. É algo frio, racional em excesso, que move todos ao redor da rotina estabilizada de Brandon; o trabalho é irrelevante, nem ao menos sabemos a natureza dele. Sabemos apenas que, no computador profissional, Brandon esconde suas maiores perversões pornográficas; o sexo só é bom quando conquistado e executado como rapidez. Essa sujeira emocional não poderia se refletir em outro lugar senão na própria cidade: as caixas de papelão estão jogadas na rua, o semáforo está pendurado e as moradias se passam entre o absoluto asséptico e a simplória arquitetura moderna. A Nova York é, mesmo, aquela da música de Sissy.




Mas tudo faz parte do plano. Era de se esperar que, um dia, as emoções iriam bater á porta. Porém, nessa proporção não. Ao mesmo tempo em que Sissy está presente, Brandon conhece uma mulher no trabalho. O desespero deve ser eclipsado, então nada como tentar voltar á rotina. O jantar começa e, então, ensaia-se em Shame as suas verdadeiras ambições: o maior relacionamento de Brandon durou 4 meses e sua acompanhante discorre sobre o quão bonito é o relacionamento de duas almas. Se para Fassbender o silêncio dos casais quer dizer que eles "simplesmente não tem mais o que dizer, que estão monótonos em sua relação", para sua acompanhante eles não dizem nada por estarem "conectados". No profundo estudo, temos aqui a primeira cena que deixa mais clara a intenção analítica sobre os relacionamentos. Sendo assim, não é por maneirismo estilístico que McQueen cria um take de mais de 5 minutos; algo tão importante merece ser registrado por completo. Se a morte de um instante é o corte, a cena a se eternizar em Shame é justamente essa.

No tão almejado sexo, num irônico apartamento transparente pelos vidros (como se o viciado não tivesse nada a esconder), Brandon então conhece o lado mais afetivo de uma relação. Sensual, a companheira vai crescendo perante o selvagem. Estranheza é o primeiro sintoma do vale inóspito do relacionamento carinhoso e, sem conseguir contorna-lo, Brandon falha. Já no sexo pago, animalesco, instintivo e puramente carnal, o sucesso é obtido. No mundo do protagonista, não existe a metafísica: um homem é um pênis e uma mulher é uma vagina. Dois pedaços de carne a se completarem por mera conveniência. O que nos traz de volta á sensorial Sissy, com seu explosivo imediatismo desesperado, que causa rebuliço na mente do irmão.

A confusão mental, que já havia sido manifestada por McQueen na montagem frenética de Brandon se livrando de sua pornografia, agora é sinalizada pela sonoplastia: nos minutos finais, parece que diversos orgasmos ecoam na tela, na cabeça do protagonista (e na nossa). Perturbador.




O que fazer, então? Insistir e corrigir seu erro ou tentar ignorar a diferença de um homem para um animal? O impulso humano, que inevitavelmente mescla sexo e violência, acaba falando mais alto e rende o estupendo clímax (que, só por não se render ao previsível esgotamento do corpo, já merece aplausos), onde McQueen e a trilha de Harry Escott voltam á uma arrojada montagem similar à do início do filme, mas desta vez mesclando os tempos, o que dá pistas das pequenas tragédias que podem vir a acontecer.

E na completa miséria, serve qualquer tentativa. No clímax, que remete ao prólogo do Irreversível de Gaspar Noé, temos apenas a confirmação de algo devastador: só a reação do protagonista no sexo que importa. Brandon não é hétero ou homossexual; é solitário.

Completamente ciente de sua condição, Brandon nada tem a fazer. O mar é contemplado com um depressivo olhar. No mundo cão contemporâneo de Shame, onde todos estão sozinhos, ninguém liga pra ninguém. Muito menos para Brandon. Enquanto ele chora, a chuva cai. Sua tristeza não importa.




É incrível como Steve McQueen se consagra ao criar uma obra que não soa panfletária, nem com discurso comprado. Apenas a visão de seu protagonista sobre as pessoas infelizes e gélidas ao seu redor. Não é o mundo inteiro, mas os adeptos da maior das estranhezas: os relacionamentos céticos.

E quando o olhar angustiado é trocado por um sorriso convidativo, Brandon finalmente entende. É viciado, mas está certo no final das contas. Pelo visto, a felicidade não durou muito.

Ao redor de Brandon, as emoções do ser humano são uma hipocrisia falida.